quinta-feira, 3 de abril de 2025
domingo, 2 de março de 2025
21 / Nos 20 anos da morte do escritor cabo-verdiano Manuel Lopes
Manuel Lopes escrevia em português, embora utilizasse nas suas obras expressões em crioulo cabo-verdiano. Foi um dos responsáveis por dar a conhecer ao mundo as calamidades, as secas e as mortes em São Vicente e, sobretudo, em Santo Antão.
Emigrou ainda jovem tendo-se a sua família fixado em 1919 em Coimbra (Portugal), onde fez os estudos liceais.
Quatro anos depois, voltou a Cabo Verde como funcionário de uma companhia inglesa.
Em 1936, fundou com Baltasar Lopes a revista "Claridade", de que sairiam nove números.
Em 1944 foi transferido para a ilha do Faial, nos Açores, onde viveu até se fixar em Lisboa, em 1959.
Regressou apenas por duas vezes ao seu arquipélago.
O texto acima (com adaptações) foi retirado da Wikipédia
Ficção
Chuva Braba, 1956/1957
O Galo Que Cantou na Baía (e outros contos cabo-verdianos), 1959
Os Flagelados do Vento Leste, 1959
Poesia
Horas Vagas, 1934
Poema de Quem Ficou, 1949
Folha Caída, 1960
Crioulo e Outros Poemas, 1964
Falucho Ancorado, 1997
Ensaio
Monografia Descritiva Regional, 1932
Paul, 1932
Temas Cabo-verdianos, 1950
Os Meios Pequenos e a Cultura, 1951
Reflexões Sobre a Literatura Caboverdiana, 1959
19 / Saído em 2024 no Brasil, mais um livro de Juergen Heinrich Maar: "Goethe e a Química", ed. Officio, Florianópolis, Brasil, 2024
sábado, 1 de março de 2025
18 / Luís Palma Gomes, "Dir-me-ás"
Dir-me-ás
Dir-me-ás
se são ou não
notícias auspiciosas
ou pântanos onde o corpo se afunda
ao som triunfante de uma valsa.
Dir-me-ás
se sinto dor ou prazer
ou se alterno entre ambos
como um pêndulo balançando
cada vez mais lento
sujeito que está ao atrito
da doença e do amor descasado.
Dir-me-ás...
17 / Mais um interessante texto de Nicolau Saião - carnavalesco, desta feita... e com ilustração do próprio
O Arantes telefonou-me ainda não era meio-dia. Chovia de mansinho. Ele estava alegre, como sempre (vodka "Kamikaze"). "Congemino de que irás logo tu mascarado!", disse-me mostrando saber como iria ser no baile das Saavedras. "Aposto que vais de urso!", atirou gargalhando em stacato. Não lhe disse que sim nem que não. E ele, lampeiro: "Adeus, meu malandro! Daqui a bocado passo aí por casa para que me emprestes o sobretudo que a nena te ofereceu".
Estava nisto quando tocaram à campainha. Claro, era o Avelino. "Tou cá a pensar...", afirmou antes que eu respirasse fundo "Logo no baile das Reboredos... Sou capaz de jurar que vais de guarda-republicano!". Foi direito à garrafeira e, todo lampeiro, abalou-me com o "Queen Margot"! Ainda não se extinguira o estrépito na escada e já me repenicava o telelé. Naturalmente, era o Simões, o gorducho com o seu pigarro enervante. "Olha lá, parceiro do teu parceiro! Já pensei que logo irás de bispo à funçanata das Castro Henriques...", pespegou-me com vivacidade. "É ou não é, meu chapa?" E antes de me deixar reagir já me cravara a promessa firme de 50 euros sem caroço... Despediu-se velozmente e quem vejo aparecer no e-mail do meu portátil como sempre ligado? Evidentemente, o Belisário. "Meu garanhão", li na janela do sinistro aparelhómetro "Já cá se sabe que ao baile das Avintes tu irás de bombeiro. Faz-te de novas...E não te esqueças de me devolver aquela primeira edição que me surripiaste do Fernando Arrabal".
Suspirando, fui até à secretária. Nem tinha tido tempo de ler o correio do dia anterior. Uma carta. Hum, hum... Da fôfa, a Leopoldina. "Matulão, calculo que logo ao baile da Filarmónica não te sustenhas de ir de criada-para-todo-o-serviço. Sempre gostaste de meias pretas, eheh...". E dava-me logo o recado: "Não te esqueças de me levar a tua pulseira de ouro que eu depois devolvo-ta...".
A chuva parara. Olhei pela janela, com certa melancolia, as árvores que, muito quietas, estavam como sempre no enfiamento das ruas onde se cruzavam transeuntes com um ar algo abatido. Sentia-me meio patusco.
Respirei fundo.
Despi-me nas calmas. Pausadamente. Com prazer, com decisão. Pus-me mesmo sem cuecas, fui até à porta da entrada, fechei-a à chave e, voltando para o quarto, atirei-a lá para a gaveta de baixo do armário por uma fenda entreaberta que, depois, cerrei com esmero.
Desatei a rir de mansinho. Num estilo muito meu. Abri o ar condicionado, coloquei-o no quentinho, apanhei um exemplar do Boris Vian e estendi-me confortavelmente na doce cama.
Eles nunca tinham pensado que neste Carnaval eu iria ficar no leito mascarado de nudista...
In “O pincel honesto, contarelos para mortos-vivos”
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Pintura de Nicolau Saião |
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025
16 / Nicolau Saião, "O animal"
O animal
É só uma questão de começar: o animal começa
o rosto erguido, o olhar cego de terra
- que a sua santidade é a mais oculta de todas
inevitavelmente mudando e recompondo
as alavancas, o absurdo respirar das máquinas
na treva.
O animal sobe, pois
com o ombro reluzindo na madrugada
imenso, minúsculo
mais pequeno que o tempo impiedoso
cheirando a tojo e canela, a voz
inenarrável dos séculos. Talvez os nossos pais
alcancem ver a trémula
luz da lâmpada ao longe, talvez
tudo seja de repente claro e sóbrio
- arquitectura, objectos perpétuos, um sinal
de apaziguante secura, a fresca
lembrança da larga dependência onde guardavam
os frutos e a escuridão. Talvez
para eles haja choros e piedade, a semente
do silêncio.
E contudo o animal aspira o leve cheiro
que o circunda
a chama impenetrável de muitos anos presos
à sua recordação
O animal percorre agora os quartos e as salas
o perfil doloroso das montanhas
o animal vai existindo no mundo
é o torso do mundo
o animal penetra no elemento novo
fala com as palavras obscuras que se escondem
numa gaveta duma cidade destruída.
O animal tem dentro de si vestígios
de turva dissipação. O animal
sente o vento nas barbas, contenta-se
com um logro, um afago, um charco de sangue.
O animal arqueja, enquanto
a música se propaga entre os muros e as estátuas.
Talvez seja, quem sabe, uma aparência
verdadeiramente santa e tenebrosa. Por enquanto
a sua memória cobre-se de cicatrizes
parte copos, perde-se na contemplação
da alegria, como se
o animal existisse. É o calor
o êxtase de reconhecer, visível e subtil
de si mesmo. O animal
passa de um lugar a outro, simplesmente
e recompõe tenaz e sabiamente
a sua imagem destroçada.
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"Elefante", Salvador Dali |
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025
15 / Do poeta José Vultos Sequeira, chegou ao T&T pela mão do eng. António Jacinto Marques o livro "Onde Nasce a Água" (2019)
Da badana da capa do livro: José Vultos Sequeira nasceu em Mora, em 1944. Autodidacta, publicou os seus primeiros versos nos anos 70 na revista "Eva" e no jornal "O Diário", numa página de poesia e também de temática infanto-juvenil, da responsabilidade de Mário Castrim e Alice Vieira. Nos anos 80 publicou livros para crianças e poesia, premiados pela Associação Portuguesa de Escritores, Fundação Calouste Gulbenkian e Associação 25 de Abril. Tem mais de uma dezena de livros publicados. Dado que na badana da contracapa se indica que não se podem fazer reproduções da obra e não conhecemos o autor, ficará para outra ocasião a passagem no T&T de alguns dos seus interessantes poemas.
Título: "Onde Nasce a Água"
Colecção: palavras escritas
Revisão do texto: Ana Mendo
Design e paginação: Augusto Nunes
Impressão e acabamentos: Oficinas Gráficas do Banco de Portugal
Patrocínio: Grupo Desportivo e Cultural do Banco de Portugal
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025
14 / Saído recentemente no Brasil, T&T tem o gosto de revelar "Conexões", de Juergen Heinrich Maar, ed. Officio, Florianópolis, Brasil, 2024
sábado, 25 de janeiro de 2025
13 / Joaquim Saial, "Eugénio"
Eugénio
Ele tinha-se em grande conta. Quando lhe perguntavam o nome, respondia levantando ligeiramente o queixo e fazendo uma suave pausa entre “Eu” e “génio”.
12 / Carlota de Barros (Cabo Verde), "A rosa amarela"
A rosa amarela
A rosa amarela
Coroando-se de alegria
Nas manhãs de sol
Abre-se ao seu ardor
Um jovem caminhava
Solitarário ardendo de amor
Ao encontro da manhã.
De repente vê a rosa
Bela... aberta ao sol.
Fulgor de florir
Debruça-se e colhe-a.
Apelo da rosa amarela
Fremente de doçura
O jovem segura a rosa
Mãos inocentes e alegres
E segue o seu caminho
A rosa apaixonadamente sua
E o jovem cantava
Acariciando a rosa
No ardor da manhã
Seu coração arde
A manhã brilha
À luz do sol
A rosa a luzir nas mãos do jovem.
Que direi mais da doçura
Do fulgor da rosa amarela
Antes que o jovem
Dela faça música?
Jovem e rosa descem
Lentamente a colina
Falo agora de carícia
Ou só de memória de beijos?
Memória de beijos
O jovem desce a colina
Com sua rosa amarela.
Vai ao encontro do amor
Falo ainda da rosa amarela
Do jovem de beijos de ardor
De alguém que aguardava
Apaixonadamente uma carícia
De seu amor sem saber
Da doçura da rosa amarela
Falo da memória de beijos
Da carícia da rosa amarela
Do ardor do jovem feliz
Da rosa amarela agora
Apaixonadamente música
Nas mãos de quem
Aguardava o seu amor...
quarta-feira, 22 de janeiro de 2025
11 / Solange Firmino (Brasil), "Indecifrável"
Indecifrável
Eu me repito.
Colo post-it por aí
para não esquecer datas.
Atravesso a idade já gasta
comprando um espelho novo.
Vejo poesia em tudo,
procurando o traço ressonante.
Sou transparente,
mas ninguém nada sabe
sobre mim.
E sempre me repito.
terça-feira, 21 de janeiro de 2025
9 / Nicolau Saião, "Poema"
Poema
Não eram vulgares as mãos de meu Pai.
Um dos dedos tinha mesmo uma unha rachada
E quando pela noite o vento me fazia
tremer
algo me entrava pelos olhos e era
uma espécie de mapa
e eu lembrava-me esforçando-me contraindo
a cara
se era de facto uma luz o que se via
rés-vés ao telhado muito perto
do grande portão de pedra em ruínas.
Naqueles tempos morávamos no campo
Muitos anos mais tarde visitei a casa
com dois filhos e vários garotos vizinhos
numa tarde ao fim dum passeio pelas matas
dos arredores. Ao canto da cozinha
estava um banco velho e a madeira
ganhara uma cor acinzentada devido
ao tempo. Disse-me depois
- enquanto comíamos pão com azeitonas -
o dono dessa quinta alucinante
no páteo da outra moradia da herdade
que durante trinta e cinco anos
não morara ali ninguém. Éramos pois
nós os fantasmas daquele lugar.
Era no Inverno e as palavras repousavam
e de vez em quando ouvia-se um ruído
como de turbilhão
- certo dia um pássaro morreu junto à
porta da entrada, onde havia
uma planta como de antigas eras -
e algum tempo depois tive de partir e olhar
o universo de tudo de isto e daquilo
O oceano e as vozes recriavam-se algures.
domingo, 19 de janeiro de 2025
8 / De "Vinhetas", de Juergen Heinrich Maar (Brasil), excerto do texto "Livros, ontem e hoje", ed. Officio, Florianópolis, Brasil, 2023
Acabo de ser presenteado com um livro de Química destinado ao ensino médio, não um livro didáctico, muito menos um livro de texto, mas um livro que quer mostrar de modo atraente as "maravilhas da Química" (não é o título do livro). A inesperada doação ressuscitou na memória (daquela parte da memória já considerada como 'inútil') uma fieira de textos de química destinados à faixa etária que começa, mas vai além do ensino médio. É bastante sugestivo o estabelecimento de comparações, e, atrevo-me a dizê-lo, de uma geralmente não vista linearidade na evolução desses acúmulos de conteúdos.
Fui aluno, estudante e professor de Química. Aluno no final da década dde 1950, estudante na década de 1960, professor desde a década de 1970 e historiador da Química desde a década de 1990. Quando fui aluno de colégio, o ensino superior ainda ostentava suas cátedras vitalícias, cujos poderosos tritulares na maioria das vezes indicavam do rolde seus assistentes os seus sucessores. Quando fui estudante, o ensino superior já vinha passando por sucessivas mudanças, algumas para o bem, outras eram antes prejudiciais. Agora, aposentado e independente, perco-me ao pensar no cipoal [dificuldade] de todos esses papéis, normas, relatórios, propostas, minutas... falta ainda o necessário distanciamento cronológico para uma avaliação (mais ou menos) isenta. Mas já se pode perceber que crescentemente a fiorma passou a ser mais importante que o conteúdo.
Mas estou me distanciando do assunto evocado pelo presente em forma de livro. De modo algum eu tinha em mente uma discussão ou tratado sobre livros didácticos de Química, seria pretensioso da minha parte, já não sou entendido no assunto. Não sou entendido, mas tenho opinião, e principalmente décadas de experiência. E pretendia tão somente registar (longe de mim avaliar) como eram esses livros em cada época que vivenciei: livros texto e outras obras didáticas,manuais e roteiros de experiências, alguma literatura para "despertar o interesse" pela ciência (não levando em conta, nessa tareefa inútil, o que cada um realmente queria, mais ou menos como no "meninas na ciência" de hoje).