domingo, 25 de janeiro de 2026

51 / Nicolau Saião, "As Novas Vozes"

O livro é de fôlego, quase 300 páginas, compilação de textos e poemas de uma das vozes literárias mais eruditas do interior português - alentejano, no caso, e em particular de Portalegre e seu aro. Saiu no final de 2025 pela Amazon no Brasil e EUA, com organização e aparato crítico de Floriano Martins, ilustração de Nina Piranesi e prefácio de Luís Barreiros. É esse prefácio que aqui divulgamos, para já. Em próximos posts, serão mostrados alguns textos e poemas do livro.

Nicolau Saião e a persistência do surrealismo como insurreição do real

Ao vaguear pelas páginas de "As Novas Vozes", o leitor não se encontra perante uma mera coletânea de textos, mas diante de uma incursão vívida num território onde a palavra, tal como no manifesto fundacional de André Breton (1924), se faz “exploração do pensamento em ausência de qualquer controlo exercido pela razão, fora de qualquer preocupação estética ou moral”. Nicolau Saião, escritor de rara lucidez e densidade poética, inscreve-se na genealogia mais legítima do surrealismo, quer enquanto movimento literário e artístico, quer como atitude ética de insurgência contra os automatismos ideológicos e as prisões da consciência normativa. Desde os seus vínculos históricos com o Bureau Surrealista Alentejano e, mais tarde, com o Bureau Surrealista de Lisboa, Saião estabeleceu uma ponte viva com figuras tutelares do surrealismo português, como Mário Cesariny e Cruzeiro Seixas, com quem manteve diálogos criativos, correspondência e cumplicidade estética. Porém, o seu trabalho ultrapassa o mero exercício de continuidade: nele, reencontramos o espírito de Artaud, a violência simbólica de Benjamin Péret, e a imagética transgressora que reconfigura o real, tal como o inconsciente o reconfigura nos sonhos. 

A obra reunida neste volume – entre entrevistas, evocações críticas e poemas – dá corpo a essa lógica subterrânea, muitas vezes onírica, onde o tempo histórico é atravessado por vozes fantasmáticas, duplos, restos diurnos e pulsões recalcadas. Como bem o diagnosticou Freud em Die Traumdeutung (1900), o sonho é a via régia para o inconsciente – e é precisamente essa via que Saião percorre com rigor, humor e uma pungente ironia. Os seus textos instalam-se na fenda entre o manifesto e a ficção, entre a lucidez poética e o delírio organizado, numa filiação que Lacan (1966) veria como “o real enquanto impossível”. 

Não será despropositado afirmar que Nicolau Saião contribui, com esta obra, para um dos grandes desígnios do surrealismo: o reencantamento do mundo através da palavra poética, da imagem insólita, da liberdade simbólica. Como o próprio escreveu em “NS, um voo sobre o surrealismo”, trata-se de “erguer-se contra a história” e de “emitir sinais para além do convencionado”. Essa resistência ativa ao apagamento do imaginário faz da sua escrita um gesto clínico – no sentido freudiano do termo – onde a linguagem não é sintoma de uma doença social, mas operação simbólica de libertação. 

Num tempo em que os automatismos do consumo e da ideologia diluem o sujeito na linguagem publicitária, Nicolau Saião insiste em manter acesa a faísca do desejo. O seu surrealismo não é apenas memória de um movimento, mas a emergência intempestiva de um pensamento do fora – do exílio, do anacrónico, da heterodoxia. Com "As Novas Vozes", o surrealismo português reencontra uma das suas vozes maiores, firmemente inscrita na cena internacional, mas também ferozmente enraizada numa topografia afetiva e ética que é, em última instância, aquela da poesia enquanto experiência radical do inconsciente.

Luís Barreiros

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

49 / José Carlos Costa Marques, "Uma Só Pétala"

Saído a 8 de Maio de 2025, chegou-nos recentemente o livro de José Carlos Costa Marques, "Uma Só Pétala", das Edições Sempre-em-Pé, editora de que o autor é proprietário. Trata-se de uma antologia de que respigamos um poema das várias e muito interessantes dezenas que a compõem.

 


Lenço branco

Não voltes aonde estiveste,

Não o encontrarás.

O que lá está é outro.

Outro também tu.

Porém, o que procuras, não o encontrando,

acena-te.

O branco lenço da fantasia, 

trémulo na amurada,

aproxima-se do cais saudando

ou será que se despede?

As duas coisas ele faz, pode fazer.

Soubera distingui-las!


Edições Sempre em Pé,

R. Camilo Castelo Branco, 70/5.2   4425-037 ÁGUAS SANTAS

jcdcm@sapo.pt

domingo, 4 de janeiro de 2026

48 / Revista de poesia e tradução "DiVersos" lança edição especial de 30 anos de vida com o n.º 39

A revista pode ser adquirida por 12€ junto do editor. 
Contactar  jcdcm@sapo.pt

 



Livrarias que vendem a DiVersos 
(clicar nas imagens, para ver melhor)

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

47 / Em início de ano, uma crónica adequada, vinda de S. Paulo, Brasil - Maria Helena Sato, cabo-verdiana e mindelense (in "A Mulher de Lot")

O Olhar de Jano

(crónica de Ano Novo)


Na galeria de escolhas com as quais nos deparamos, a vida se deixa contornar por mudanças contínuas. Estas se tornam ainda mais significativas durante os rituais de passagem de ano. Também nessa época, aspirações múltiplas fazem cintilar, no mais profundo do ser, sementes de promissoras metas, propósitos e sonhos. 

A mitologia romana representa essa transição de um ano para outro na estátua de Jano, sentinela de dois rostos, imagem daquilo que foi e do que será: Jano olha, simultaneamente, para o passado e para o futuro. 

Do termo latino “janu” provém o nome dado ao primeiro mês do ano, “januarius”, que hoje se codifica na palavra “janeiro”. 

O começo de um ano novo certamente estimula o desejo humano de também possuir dois rostos. Poderíamos, assim, de um lado, olhar para o ano que termina, enquanto, com o outro rosto, contemplaríamos todas as possibilidades oferecidas pelo ano que se ergue, envolto em convicções e incertezas.  

É preciso, entretanto, cuidar desse olhar lançado para trás, pois ele permite, no mínimo, dois movimentos. 

Um deles consiste em tentar reviver o que se deveria ter abandonado. O outro é resgatar o que de bom se colheu, para trazê-lo ao presente e sobre ele alicerçar a renovação. No último caso, teremos nas mãos um verdadeiro tesouro. 

Tesouros como esse, guardados a cada ano, fazem de nós poderosos observadores. Subimos neles para aumentar o alcance do olhar e vislumbrar o sol do ano nascente. Para ultrapassar as fronteiras do horizonte. Para descobrir que não há limites na luta pelo bem.

É precisamente nesse ponto da descoberta que se dá a metamorfose. Confiante, o rosto se vira para a frente. Lança uma esperança tão iluminada que faz brilhar uma nova trilha a desembocar no futuro – com propósitos, sonhos e realizações, promessas de novos tesouros. Vislumbramos um mundo melhor, com potencialidades e desafios. Esse plano de ação nos fortalece e nos deixa prontos para mais 365 dias.   

Faça as malas, traga todos os seus tesouros... e tenha uma feliz mudança para mais um ano de Esperança!

Feliz 2026!

Maria Helena Sato (in "A Mulher de Lot")

46 / Um ano de vida do Teclas & Teclas, cumprido hoje

45 / O "Madeiro" de Penamacor, uma tradição também poética

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

44 / Adriano Miranda Lima, "Uma luz ao fundo da noite"


Uma luz ao fundo da noite

Conto de Natal dos tempos em que se vivia com pouco


Naquele tempo, anos quarenta do século passado, para o comum das pessoas de poucos recursos a celebração do Natal pouco mais era que um sentimento interiorizado e partilhado no seio das famílias. Numa época em que até escasseavam bens de primeira necessidade, imagine-se quão distante se estava do consumismo de hoje com as promoções e o Black Friday vulgarizados na actividade comercial.

No bairro onde vivia a Luzia a iluminação pública era escassa e nem todos os lares tinham luz eléctrica puxada para o interior das habitações. A véspera do Natal não era para ela diferente dos dias comuns. Como sempre, levantou-se aos primeiros alvores da madrugada para confeccionar os bolos e os salgados que vendia diariamente na vizinhança e nos estabelecimentos, para garantir o seu sustento. Mulher de rija têmpera, abandonada pelo marido há alguns anos, tinha da vida uma experiência agridoce, na sua maneira peculiar de sofrer as agruras do quotidiano sem hipotecar as reservas do seu ânimo. Os seus sessenta anos de idade foram-lhe ensinando desde cedo que o poder da imaginação logra por vezes autênticos milagres na busca de novos estímulos para a vida. Bastava-lhe a simples contemplação das estrelas distantes para pensar que algo mais haverá para lá do bairro onde se esgota a rotina da sua vida. Este e outros devaneios do género transformam-na, com frequência, em avatar da vida fervilhante das grandes cidades estrangeiras que uma ou outra vez viu estampadas em coloridos postais. Mas ela logo se devolve, satisfeita consigo própria e com o pouco que tem, à pobreza honrada do lugar em que exerce a soberania do seu viver. 

Este dia é véspera de Natal e seria mais um igual aos outros não fosse o sonho que ela vinha acalentando e queria ver realizado logo à noite. Foi na prateleira de uma loja de utilidades domésticas que o sonho da Luzia tinha começado a ganhar forma. Há muito que desejava ver-se livre do modesto candeeiro a petróleo que mal lhe alumiava a casa à noite. Pensava ela: − isto é coisa de fraco jeito, está mais que velho, fumega com frequência e não me dá aquela luz que entra pela alma dentro. E o que a seduziu? Um grande candeeiro de vidro, com um vistoso globo brilhante como cristal. Mulher de espírito fantasioso, seduzia-se com as figurinhas gravadas a estilete de aço no globo do candeeiro, que no seu entender só podiam ser obra de artista de outro mundo. 

E foi assim que começara desde há algum tempo a amealhar um escudo hoje, outro amanhã, e por vezes valores mais avultados quando o dia lhe corria de melhor feição no negócio do seu sustento. Arranjara um pote de barro com uma ranhura e dele fez o cofre que haveria de realizar o milagre da sua melhor prenda natalícia alguma vez recebida. 

Quando o Sol se pôs, a Luzia já estava em casa e esfregava as mãos de contente por ter realizado um dia de venda lucrativo. Compôs a sua mesa com especial esmero e nela dispôs os ingredientes da ceia natalícia, produto da sua própria confecção. Depois, quando já escurecia, foi buscar o ambicionado candeeiro dias antes comprado. Atestou-o de petróleo, aguardou que a torcida se embebesse do combustível, nivelou-a o suficiente, riscou um fósforo e chegou-lhe a chama. O compartimento foi subitamente inundado de uma luminosidade nunca vista na salinha da sua pequena casa. Ela elevou a torcida ainda um pouco mais, na ânsia de conferir à luz o máximo de incandescência, e de repente todo o interior da habitação quase pareceu ganhar padrões caleidoscópicos, realçando-se pormenores antes ocultados pela luz modesta do anterior candeeiro. Convidou a sua amiga e vizinha, a idosa Isabel, viúva e a viver só, para a ceia de Natal. E a Isabel teve logo este espontâneo desabafo, mal entrou: − Luzia, isto hoje está outra coisa, mulher! É como se a luz deste candeeiro lavasse e renovasse tudo, incluindo os nossos corações! A Luzia não coube em si de contente com o reparo da amiga. 

Cearam e conversaram longamente sobre o seu longínquo passado de raparigas novas, relembrando a dureza da vida, com as suas artimanhas e traições, mas também com as ilusões que se douram e se renovam com a luz do sol nascente de cada dia. A cumplicidade entre ambas tornava a Isabel a melhor confidente dos segredos do coração da amiga, cujas divagações do espírito mereciam sempre a sua concordância mesmo que muitas vezes as não entendesse. 

Despediram-se quando lá fora o silêncio da noite era ainda quebrado pelo estalejar de um ou outro retardatário foguete de Natal. Por fim, foram-se extinguindo os ruídos da noite, sempre mais pródiga de eflúvios em dias festivos. Luzia ficou acordada mais algum tempo, sozinha com os seus pensamentos, inalando sofregamente a luz do seu novo candeeiro, sentindo um revigoramento de alma, como que banhada por outra luz, uma luz celestial.

Nota: a redação deste texto obedeceu à ortografia anterior ao AO 90.

Tomar, 21 de Dezembro de 2025

domingo, 14 de dezembro de 2025

43 / Luís Palma Gomes, "A casa temporal"




A casa temporal


Sou, por agora, mistério em bruto,

sortilégio ainda incandescente.


São assim as manhãs de inverno,

quando o sol aparece sem avisar, 

para almoçar.


Se apenas existisse esta manhã,

seria suficiente:

o passado reconstituído

em filigrana,

o futuro coisa mínima,

carpa a nadar, previsível,

num lago semi coberto de folhas.


É isso o que faço:

exercito até ao meio-dia

a contenção do tempo.


Alguém, porém, bate

na porta grossa de carvalho

que construí para esta casa temporal.

Bate e insiste

com mãozinhas delicadas, 

afiadas e subtis;

insiste, insiste.


“Deve ser uma criança”, penso.


Quando abro a porta, ninguém.

Só uma sombra desce as escadas, apressada,

e deixa no tapete

uma carta fechada.

Prefiro não a ler, por enquanto.

sábado, 18 de outubro de 2025

42 / Joaquim Saial, "Quem era o Sr. Alejandro Ruiz?"

 


Quem era o Sr. Alejandro Ruiz?


Ninguém sabia ao certo.

Chegou numa tarde de domingo,

como se já tivesse estado no hotel,

instalou-se no quarto 407

e por ali foi ficando.


O chapéu de panamá pousado

no encosto da poltrona do átrio

parecia uma assinatura.

Um traço branco e leve,

sempre impecável,

nunca torto, nunca gasto.


Os charutos cubanos eram a sua marca.

Cheiro doce, denso, intenso,

que se demorava nos corredores,

como se fosse uma presença invisível.

Acendia-os devagar,

com dedos de quem conhecia o ofício

e sorria ao primeiro fumo,

na esplanada do bar do hotel.


Sapatos claros, lustrosos,

que não conheciam pressa.

Calças brancas de linho,

paletó e camisa a condizer,

um conjunto que parecia

resistir ao tempo e ao pó da cidade.

Era sempre domingo no seu vestir.


O telefone fixo do hotel,

antigo, negro e pesado,

vibrava com a sua voz grave.

Chamava para longe,

para números que ninguém repetia,

em idioma meio arrastado,

num espanhol ultramarino.


Os empregados sabiam:

a chamada não era curta.

Mas nunca reclamavam,

porque no fim do mês

havia sempre notas generosas

que deixava como quem deixa flores.


Depois vinha ela,

a mulher espampanante.

Cheiros de perfume caro,

saltos altos que ecoavam no mármore.

Deixava documentos,

embrulhos pequenos,

um aceno breve,

curta conversa

e desaparecia,

como quem veio só para confirmar

que a história continua.


Ele permanecia.

Sempre à mesma mesa do átrio,

com o jornal aberto,

mas raramente lido.

Cumprimentava todos:

“Buenos dias, señor Don…”,

“Buenas tardes, Dueña…”.

Um cavalheiro que se lembrava dos nomes,

que por isso ninguém esquecia.


Era um hóspede,

mas vivia como residente.

O hotel era a sua casa

e todos o tratavam como família.

Nunca se soube se pagava mais ou menos,

apenas que pagava sempre,

sem impugnar contas,

com notas limpas,

saídas de uma carteira de couro

recheada, profunda.


As histórias multiplicavam-se.

Uns diziam que fora diplomata.

Outros, que negociava café.

Havia quem jurasse

que tinha estado em Havana,

em Buenos Aires,

em Bogotá,

em Madrid

e que conhecia pessoas

com nomes demasiado sonantes

para se repetirem em voz alta.


Nunca perdia a compostura.

Falava baixo,

com pausas medidas,

como se cada palavra

fosse uma peça num tabuleiro secreto.

E sorria 

— ah, sorria, como quem sabe

que o mundo é um jogo

e que ele o jogava,

bem jogado.


No Natal, deixou presentes

para todos os empregados.

Uma caixa de chocolates suíços,

um relógio de pulso,

um lenço de seda.

E gorjetas dobradas,

sem nunca mostrar esforço.

Quem faz isso sem pedir nada?


À noite, o bar fechava tarde,

mas ele permanecia.

Um copo de rum,

o charuto apagado

e a sua silhueta clara

a flutuar na penumbra.

Havia quem dissesse

que falava sozinho,

mas outros garantiam

que ouvia apenas

os fantasmas do passado.


Ninguém o viu zangado.

Ninguém o viu apressado.

Parecia ter todo o tempo,

como se o relógio fosse um adereço

feito apenas para os outros.


Quando o vento soprava forte,

o chapéu de panamá ficava intacto.

Quando chovia,

ele entrava com o mesmo sorriso,

como se a água fosse apenas

um detalhe da paisagem.


Os rapazes novos do hotel

perguntavam curiosos:

“Quem é, afinal, o senhor Ruiz?”

E os mais velhos encolhiam os ombros:

“Um cavalheiro. Isso basta!”


Um dia, ficou mais tempo ao telefone.

O olhar sério,

o havano esquecido no cinzeiro.

A mulher não veio.

E nesse dia,

os corredores pareceram mais silenciosos.


Mas na manhã seguinte,

lá estava ele,

de paletó branco, como sempre,

chapéu leve,

sapatos a brilhar.

Cumprimentou todos

com a mesma voz firme

e deixou o dobro das gorjetas.


Quem era, afinal, o sr. Alejandro Ruiz?

Um homem de gestos largos,

de palavras medidas,

de mistério suave,

como um fumo que não sufoca,

mas envolve.


Talvez um diplomata,

um contrabandista,

um poeta disfarçado,

ou simplesmente alguém

que quis viver

onde fosse lembrado com simpatia.


No fim, quando desapareceu,

o que ficou foi um vago rumor,

o perfume de tabaco doce,

o brilho das moedas deixadas no balcão,

o som grave da sua voz no telefone

e o enigma, sempre intacto,

como o seu chapéu de panamá

imune ao vento.


quarta-feira, 24 de setembro de 2025

41 / Luís Palma Gomes, "Ervas secas, quase mortas"


Ervas secas, quase mortas


Vós, que tivestes

todo o verão para florir,

e creio que cumpristes.


Os pássaros e os ratos

amavam-vos

por razões diversas,

mas não menos sinceras

e frutuosas.


Amavam-vos

como quem ama

a mãe,

o pai,

a própria pele.


Agora,

vossas folhas

acastanham lentamente.


Talvez a terra vos chame

em segredo

e para sempre.

Ou talvez não.


Talvez apenas adormeçais

no lume brando do chão,

no melhor dos refúgios

para quem perdeu, por agora,

alguma força.

sábado, 20 de setembro de 2025

40 / Jorge Amado (Itabuna, Brasil, 1912 – Salvador, Brasil, 2001) escrevendo à máquina

39 / Solange Firmino (Brasil), "Enseada de Junho"


Enseada de Junho


Não sei se amo mais o marujo, o vento

ou a maré que traz a desordem da espuma.

O cais inabitado é uma metáfora a decifrar

o silêncio do inverno.


Os barcos velhos ancorados, as velas rotas recolhidas

fazem pensar que só buscavam um porto de abrigo.

Até as aves marinhas alteram seus rumos.

Adio para amanhã mais uma tormenta.


Ao entardecer, percorro a orla da praia.

Espero a lua se acender no mar.

Só os uivos comovidos dos cães

me fazem companhia agora.


Foto Joaquim Saial

terça-feira, 2 de setembro de 2025

37 / Na morte (hoje) do actor índio Graham Greene, por Nicolau Saião


Hoje, logo que abri o aparelhómetro, dei com uma triste notícia: morreu Graham Greene, o actor índio da tribo Oneida que todos nós pudemos apreciar nos filme em que esplendeu a sua grande qualidade de intérprete: “Danças com Lobos” ou, no campo dos melhores policiais cinematográficos, o inesquecível “Coração de Trovão”, a partir de um must de Tony Hillerman, posto na tela pelo consistente Michel Apted no qual para além de Green também actuaram os excelentes Val Kilmer, Sam Shepard e Sheila Tusey, enquadrados por uma equipa bem escolhida.

Graham Greene, que pelo seu povo fora elevado à condição de chefe honorário devido à sua qualidade de grande actor de teatro e cinema mas também pela sua postura de integérrimo representante da sua tribo (Oneida, uma das pertencentes às denominadas Seis Nações) teve antes de enveredar pela arte cénica diversas profissões: carpinteiro, operário do aço e soldador até chegar, pelo estudo depois, a engenheiro civil.

Tive ocasião, durante a minha estadia no Canadá, em Toronto - cidade onde ele vivia - e noutros locais do Ontário, de conversar com diversos oneidas, os quais unanimemente me referiram, a dado passo, o gosto que tinham em ser confrades tribais de Greene, apreciado e respeitado como membro destacado da nação Oneida.

(Os Oneida são um povo indígena do grupo linguístico iroquês, com as suas terras ancestrais em Nova Iorque. Eles são um dos cinco povos originais da Confederação Iroquesa (ou Haudenosaunee), conhecidos como o "Povo da Pedra em Pé". Os Oneida tiveram um papel crucial como aliados dos Estados Unidos durante a Revolução Americana e muitos se dispersaram ao longo do tempo, estabelecendo-se em Wisconsin e Ontário, Canadá, após a perda da sua terra. 

Resta-me referir que o chefe Cavalo Corvo, nome índio tradicional do saudoso actor agora falecido - por causas naturais conforme é referido nas notícias necrológicas, pois não partiu por doença ou acidente - fora nomeado, entre diversos outros galardões durante a sua carreira, para o Oscar de melhor actor coadjuvante pelo seu papel de Chefe Kicking Bird do "Danças com lobos" em que dava réplica ao também excelente Kevin Costner, realizador dessa memorável película posta em cena a partir de um notável romance do norte-americano Michael Blake.

Consternado pela sua partida, curvo-me perante a sua memória.

36 / De Luís Palma Gomes, "Os anjos"


Os anjos


Nada é mais terrível do que um anjo

quando desce branco e silencioso

para mudar de lugar os lírios

que dispuseste com tanto cuidado na jarra da sala.


O belo é um adjectivo revelador

que lhes cai dos olhos para as asas,

escorrendo depois até à ponta dos dedos.


É através desse lugar táctil

que os anjos sentem e nos mudam o destino,

trocando flores como quem escreve

numa linguagem de profecias.


quinta-feira, 28 de agosto de 2025

35 / De Joaquim Saial, "Sopro"


Sopro


Na orla da noite

há um homem que não tem nome

e que, mesmo sem nome,

é feito de som.

Não se apresenta,

não acena,

não espera aplausos.

Abre o estojo como quem profana um relicário,

retira o saxofone

com a lentidão cerimonial de quem pega fogo a um templo

e toca.

Toca como quem regressa a um lugar

que nunca viu,

mas que sempre reconheceu.

Não há rima no que faz.

Não há compasso.

Só uma busca cega,

como quem sopra para dentro da terra

à espera de que algo devolva o grito.

Ouvira Charlie Parker pela primeira vez,

num quarto emprestado,

com o sol a morrer devagar na ombreira.

Daquele dia em diante,

deixou de escutar o mundo da mesma forma.

De John Coltrane aprendeu

que a fé também pode ser dissonância.

Que cada nota é uma escada para o interior

e que o silêncio entre elas

é o lugar onde Deus se senta.

Com Sonny Rollins aprendeu o risco.

O peso do improviso como abismo

e o voo possível mesmo sem asas.

Ornette Coleman ensinou-lhe o corpo da liberdade,

o gesto antes da intenção,

a verdade sem mapa.

De Wayne Shorter veio a sombra,

o contorno do invisível,

a arte de dizer

aquilo que se parte em nós

sem fazer som.

Michael Brecker trouxe-lhe o rigor do abismo,

a física do lamento,

a ciência do espanto.

Mas não era deles que falava

quando tocava.

Não era de ninguém.

O som que dele saía

não era homenagem,

era instinto.

Era fome.

Era o desejo de deixar de ser pele

e ser curva.

De deixar de ser carne

e ser metal.

Falava do saxofone como outros falam da alma.

Como se o instrumento não fosse um objecto,

mas um destino.

Queria dissolver-se na vibração.

Ser corpo oco,

ressonância,

vento atravessado.

Passava os dias a afinar-se com o mundo,

como se esperasse o instante exacto

em que a sua matéria

se fundisse com o latão.

Tocava no meio da rua,

numa praça de pombos e ecos,

com os olhos fechados

e o corpo arqueado sobre a música

como um arbusto sob a chuva.

Às vezes, uma só nota sustentada

abria fendas no ar.

As pessoas paravam,

não para ouvir 

— mas para lembrar.

Ninguém sabia o seu nome.

Nem ele.

E quando enfim desapareceu,

o saxofone ficou encostado a uma parede,

ainda quente,

como se tivesse corpo.

Dizem que, se o chegarmos ao ouvido,

poderemos escutar o mar.

Mas não o mar das gaivotas, o outro.

O que se esconde

no fundo do som.


sábado, 9 de agosto de 2025

34 / De Luís Palma Gomes, "Prognósticos"

 

Prognósticos


Parece que hoje não chove,

parece. 

Quando vai chover 

as vozes são outras 

e chove-me também. 

Por isso, eu sei 

que não vai chover,  

como aqueles galos de plástico

que mudam de cor 

quando isso acontece.


domingo, 29 de junho de 2025

31 / De Luís Palma Gomes, "Pax simulata"

 

Pax simulata


Somos grandes gatos, tu e eu.

Por isso, dormitamos no sofá 

a ouvir a imitação da chuva

que o filtro do aquário faz ressoar na sala. 


Gostamos de estar assim, 

horas e horas, tentando

acalmar a bravura do relógio.


Porque a paz não é bem a paz, 

mas apenas a ausência da guerra.



domingo, 18 de maio de 2025

29 / De António Rosa, "Luís, o que queria trabalhar..."


Luís, o que queria trabalhar...


Luís era um pobre diabo que não tinha onde cair morto, como soe dizer-se.

A fome agora apertava e nem sequer um biscate, um mandado, nada lhe aparecia que lhe pudesse trazer uns pequenos trocos para uma bucha. Embora se envergonhasse já começava a pedir, depois que a polícia correu com ele do parque de estacionamento, mas até as pessoas com cara de caridosas lhe negavam a esmola.

Luís estava mesmo a passar mal. Deambulava por aquela rua abaixo, que vai dar ao antigo parque industrial, sem rumo definido, andando por andar. Passou ao portão de um velho pavilhão onde ouviu gente e máquinas a trabalhar. Veio-lhe à cabeça a resposta que alguém lhe dera ontem, quando pedia esmola: “Vai trabalhar, malandro…”. Será que aquele sujeito tinha razão? 

Luís parou, passou as mãos pelos cabelos desgrenhados, na tentativa de melhorar a má imagem, sacudiu também a poeiras das calças e decidiu-se a bater ao portão. Eis que naquele instante este se entreabriu e surgiu um homem de meia-idade, bem vestido e de telemóvel ao ouvido, que esbracejava, visivelmente irritado e passou por ele sem o ver. Deu três ou quatro passos na calçada e voltou para junto do portão. “Tive de sair, que lá dentro com o barulho das máquinas não te consigo ouvir. Isto está mesmo impossível, não sei o que hei-de fazer. O pessoal está a faltar de uma maneira assustadora. Uma está de férias de parto, dois dos que mais falta me fazem estão doentes, já há uns dias. Outro telefonou-me ontem à noite a dizer que hoje não poderia vir porque lhe morreu o sogro. Até o rapaz dos recados hoje faltou. Não tenho ninguém para fazer a entrega das encomendas. Isto está um caos completo. E logo numa altura destas em que não posso fechar, que era a vontade que eu tinha…” E continuava a conversa gesticulando, dando pontapés em pedras da calçada, que não tinham culpa nenhuma, à beira de um ataque de nervos.

Luís apercebeu-se que aquele era o patrão. Tinha de lhe pedir emprego, mas era óbvio que aquele não era o momento apropriado.

Entretanto o homem, quando se voltou para entrar, reparou naquele rapaz andrajoso ali encostado ao portão. “Quem é você e o que quer daqui?” 

Luís, um pouco envergonhado respondeu: “Sou o Luís e vinha pedir emprego pois preciso muito de trabalhar, em qualquer trabalho que seja, pois estou a passar fome. Agradecia-lhe muito.”

Diz o patrão: “Não é que eu não esteja a necessitar de colaboradores, mas agora não tenho tempo para o atender.”

“Não faz mal, eu posso ficar aqui à espera”, respondeu o Luís enquanto se sentava no chão, encostado ao portão de ferro, que estremeceu quando o patrão o fechou.

Já no gabinete, sentado à secretária, passava a mão pelo pouco cabelo num gesto de preocupação. Como é que vou entregar estas encomendas que têm que chegar aos clientes impreterivelmente hoje? Nem sequer posso sair daqui, com a falta do encarregado.

Entretanto, pela janela entreaberta ouvia-se da rua uma multidão que gritava: “Deixem trabalhar o Luís”. Iluminou-se. Correu ao portão a chamá-lo e disse-lhe: “Você vai entregar isto.”


sábado, 26 de abril de 2025

27 / Joaquim Saial, "Humilhação"


Humilhação


Aquele leão era o mais destrambelhado e mau caçador do bando. Quando ao tentar atacar um elefante foi agarrado pela tromba deste e projectado contra o grande imbondeiro, o que mais o vexou não foi esse facto, mas sim ouvir toda uma alcateia de oito hienas a rir-se às gargalhadas da sua desgraça.

quarta-feira, 16 de abril de 2025

26 / Luís Palma Gomes, a partir de um verso de "Tabacaria", de Álvaro de Campos/Fernando Pessoa

 

Há tantos que não pode haver tantos

porque se houvesse tantos, nem um havia.


E mesmo que houvesse um,

como seria ele singular e autêntico

se os outros eram tantos?


Não, não pode haver tantos

sem que rompesse de imediato

um escândalo e uma catástrofe,

por haver apenas um entre tantos.


e no final esse tal seria afinal nenhum,

para que continuasse a haver tantos,

apesar de não haver sequer um.


25 / Carlota de Barros (Cabo Verde), "Noite de lua cheia"


Noite de lua cheia                 


Tenho gravado nos meus olhos

O luar que me extasiou

Numa noite 

Em que a lua cheia 

Me seguiu

Calma e segura 

Pelos caminhos por onde ia.


Ó noite de lua cheia 

Tão calma ... tão bela...

Que ficaste gravada 

Nos meus olhos

Até adormecer.


E como é belo o luar 

Que tão naturalmente        

Nos fica nas mãos e na alma!


Ó doce lua cheia 

Tão calma tão bela

Que ficaste nos meus olhos 

Para sempre.

Que mistérios escondes 

Noite de lua cheia?

Ó noite de luar  

Noite de doçura  

Noite de mistério e luz


Como desejo ficar acordada 

Para contemplar

Docemente o luar 

Até brilhar a aurora!


E como é belo o luar

Nas minhas mãos 

Naturalmente calmo 

Naturalmente misterioso!


Ó lua cheia que enquanto 

Eu adormecia feliz

Me uniste ao luar e à noite 

Entre os mistérios da noite

E a doçura que o luar esconde! 


24 / Ainda de 2024, mais um livro do prolífico autor brasileiro Juergen Heinrich Maar: "150 Sonetos à Moda Antiga", ed. Officio, Florianópolis, Brasil, 2024

A grande arte do soneto tem em Juergen Heinrich Maar um interessado e rigoroso cultor, em que o "à Moda Antiga" do título nada tem de arcaico  (melhor dizendo, obsoleto). Pelo contrário, Maar, admirador confesso de fernando Pessoa e de Florbela Espanca, confere aos poemas uma certa intemporalidade que  tanto os remete para as grandes obras dos autores clássicos, como lhes dá a modernidade que se exige aos autores hodiernos. Desta obra, servida por cuidadoso trabalho editorial, aqui fica a nota e um dos sonetos (e outro, na contracapa).


Paisagem


A curva do caminho inda é o segredo
Apesar de brilhar ao longe o raio
Que incendeia a paisagem, com o medo
Esvaindo-se lentamente num desmaio.

Levam-no nuvens cinzentas bem cedo
Destilando solene a luz de maio
A curva do caminho num enredo
Abrindo de fantástico ensaio.

Todo um novo horizonte liberta
Os d«segredos da curva no caminho,
Que assim as notas cálidas desperta.

Suas sombras banhado de carinho
A que nada resiste nem perdura
E que envolve o segredo e o transfigura.