A propósito de televisão
Desde há cerca de trinta anos que a
denominada sociedade ocidental participa numa mutação tecnológica acelerada a que,
por vezes, não consegue
dar resposta adequada no campo espiritual. O nosso mundo conceptual
transfigurou-se duma maneira brusca e tal facto tem condicionado o
nosso universo de relação. Há factores exógenos e outros endógenos, nem
sempre bem meditados ou enfrentados com perspicácia ou
capacidade para bem gerir a vida colectiva. E não falamos agora, é
claro, nas tentativas deliberadas de orientar a realidade em direcções
que só acarretam prejuízos às populações.
Ora, a televisão, como meio
privilegiado e totalizador a nível de comunicação de massas, reflecte com
enorme relevo esse panorama inquietante.
Numa obra saída há já algum tempo, o
pensador Alexander Himmelweit diz-nos a dado passo que “a visão do
mundo apresentada pela televisão afecta o
comportamento real dos telespectadores em função das tendências
que se têm e que através dela são pois reforçadas. Verifica-se assim que a
televisão orienta comportamentos pré-dispostos.”. O problema é que, como referia
noutro estudo o sociólogo Alain Dickinson, “apanhada num fluxo
turbulento de mudança, além de intelectualmente confusa, a pessoa sente-se
desorientada no plano dos valores pessoais; à medida que o ritmo se acelera, à
confusão juntam-se a dúvida acerca de si mesma, podendo comparecer a
ansiedade e o medo. À medida que o tempo decorre, a pessoa torna-se
tensa e chega a cansar-se com facilidade, ficando mais permeável à doença. Com
o aumento implacável das pressões habilmente induzidas, a tensão transforma-se
em irritabilidade e, por vezes, em cólera e até violência – que, por outros meios
socialmente directos, o poder canaliza então em direcções que lhe interessam.
Ninharias desencadeiam grandes reacções; grandes acontecimentos,
reacções insignificantes”.
Ou seja, é-se objecto
de arteira manipulação.
Antes de passarmos adiante gostaria
de referir que recentemente, num dos laboratórios de ponta duma famosa universidade
europeia, foi levada a efeito uma experiência com pessoas de várias etnias e de
diversos níveis etários. E concluiu-se que a música – principalmente certo tipo
de música – actua nos mesmos
centros cerebrais onde actuam as drogas.
E, a talho de foice, pergunto: será
por isso que nos últimos tempos, principalmente nos meios radiofónicos – aliás caracterizados
por uma enorme mediocridade – são incessantemente emitidos programas musicais
e, mesmo, maioritariamente entrevistados ou epigrafados protagonistas desse mundo
(além, é claro, das consabidas rubricas sobre política partidária e futebol)?
De há uns tempos até agora, tem-se
voltado a falar com intensidade na questão da violência veiculada pela
televisão. Determinados próceres da política à portuguesa, com aprumo jesuítico
têm vindo a lume com pezinhos de lã sugerindo diversas formas de controle (de censura, que é o que lhe
subjaz) contra a violência que se exprime através de películas com tiros a
granel e pancadaria de criar bicho. No entanto, com a sua efígie mesureira e hipócrita
no limite, geralmente deixam de fora – claro! – outras formas graves de violência,
mais disfarçada e insidiosa que, quando muito, tocam pela rama: o espectáculo
da lagrimeta, do sentimentalismo bacoco e do humorismo que não passa de propaganda
partidária/governamental mal-disfarçada, o apelo à contemplação do mexerico e
da bisbilhotice, os trechos elementares ou boçais geralmente protagonizados por
luminárias da frivolidade básica ou embandeirada do jet set. As rubricas de opinião ou de
comentário que
não passam de ideologia torcida, os talk shows pretensamente
modernaços que se apoiam, notoriamente, num certo erotismo para primários que
não é mais que pornografia manhosa e sem subtileza.
E não devemos esquecer que a
pornografia, como o denotou Sarane Alexandrian e tantos outros, com a sua carga
“comercialista” evidente, é um dos sinais típicos do recalcamento injectado
pelo fideísmo eclesial ou partidário, essa suma violência dos espíritos em que se
exprime a monomania.
Aproveitando-se dos traumas e dos
preconceitos duma sociedade bloqueada ou disfuncional no plano afectivo, estas formas
disfarçadas de violência, mas não menos mistificadora e perigosa, têm como
objectivo criar audiências teledependentes, uma vez que estas são o suporte da
publicidade, que é uma das faces do império dos negócios. E, quando digo império, quero significar o economicismo
sem pudor e sem freio, não a legítima troca ou compra-e-venda que subjaz e
conforma uma fase característica de existência societária.
O que, evidentemente, a manipulação
televisiva tenta estabelecer, é a criação de seres supranumerários, em quem a docilidade
é adquirida de maneira progressiva e serena, predispondo o grande público para
a passividade, a ausência de calor humano, de solidariedade e a
dispersão/banalização dos sentimentos, ligando-se a ideias colectivas sob a
batuta de gurus e de condottieris cheios de lábia que,
de forma suave e afectuosa, estabelecem o primado do justamente descrito como “ur-fascismo
doce”,
que um dos líderes do sinistro “Grupo Bilderberg” estabeleceu como sendo o
efeito de “em vez de seres
levado à matraca, és conduzido com jeitinho e ternura”…
A televisão, que podia ser um meio
qualificado de comunicabilidade humanizada – e nos melhores casos (sem a velhacaria
dos que com ou sem máscaras desprezam o cidadão e o ser humano por extenso) é
de facto um veículo de qualidade (lembremo-nos por exemplo de notáveis
documentários da BBC, dos concertos austríacos, das peças de teatro francesas e
de alguns especialistas espanhóis e lusos) – tem sido levada por maus caminhos
por esses émulos de pequenos goebbels que usualmente a conseguiram
colonizar por obra e graça do politicamente correcto e do descaramento
estatal que,
nos casos mais sintomáticos e impudicos, tentam fazer de nós todos idiotas
úteis…