quarta-feira, 15 de julho de 2026

67 / Duas cartas de Cruzeiro Seixas dirigidas ao pintor e poeta Nicolau Saião

Filamentos (artes e letras)

Bruma Publications

14 julho

Desenho de Nicolau Saião

ÀS VEZES CHEGAM CARTAS… NICOLAU SAIÃO, SOBRE CRUZEIRO SEIXAS

Em 2018, Cruzeiro Seixas enviou-me duas cartas.

Uma delas agradecendo com fraternal pormenor o envio que lhe fizera de livros meus.  A outra, que carreava a oferta de um seu catálogo-livro, era mais extensa e nela se alongava em reflexões de índole pessoal norteadas por uma comovente humildade de verdadeiro fabro, de hacedor  sem jaça, sem prosápia (como a que enroupa certos cavalheiros de mão romba que se crêem irmãos de predestinados pelas deusas da paleta) – ele que é indiscutivelmente entre nós um dos melhores desenhadores deste tempo, senhor de uma imaginação transbordante e fecunda que lhe permitiu navegar, como diria Péret, “sem norte e sem estrela através das tempestades, rumo aos areais rumorejantes de ágatas onde brilha o olhar provocante das opalas”.

Elas trouxeram-me de pronto à recordação uma certa tarde, cerca de 50 anos antes, em que o conheci, nos conhecemos, numa galeria de pintura, no decorrer da inauguração de uma mostra de um autor que já não lembro quem teria sido. O que não esqueci, ao ser-me apresentado por um colega de veraneio, foi a sua figura de fino recorte: um senhor esbelto de indumentária em cinzento claro, camisa azul marinho, cabelo grisalho acentuando uma delicadeza bem espalhada nuns olhos perscrutadores e abertos numa espécie de sonhadora atenção.

Conversámos seu bocado e, sem me lembrar de muitos pormenores, apenas guardei que faláramos de surrealismo, de pintura e de como e porque razão me encontrava eu ali.

E estivemos um par de décadas sem contactarmos de novo. Embora eu fosse tendo, como ele decerto em relação a mim, notícias do seu trajecto, da sua demanda, ele que com Mário Cesariny e António Maria Lisboa – Pedro Oom era de uma outra dimensão, ainda que paralela – constituíam a trilogia que, no surrealismo em português, sentia que estava mais perto da minha própria caminhada.

Notícias essas dadas ora por um filho meu, ora por um comum amigo, ora pelos periódicos que até mim chegavam.

Ora bem: tempos atrás escrevi eu que o Surrealismo tem, nos últimos anos, estado a ser objecto de uma nova e forte atenção de ensaístas, de críticos e investigadores da escrita e da arte em geral. Isso é claramente perceptível e, diga-se mesmo, perfeitamente entendível, uma vez que ele nunca se propôs – fosse nos seus reais praticantes fosse nas suas obras vivas – ser um elemento passageiro ou um modo particular dependente de características momentâneas de moda ou de enfoque.

Cruzeiro Seixas e Isabel Meyrelles, dois dos primeiros cultores do surrealismo entre nós e felizmente ainda bem presentes no nosso imaginário, são duas figuras fundamentais dele e nele representados.

Eu colocaria em Cruzeiro Seixas, assim e aqui, a sua limpidez como num espelho policromo e encantado: dum lado a magnificente pintura, do outro a poesia suscitadora, ática e muito rica a um tempo, deste poeta, autor que pela escrita forma e dá imagem em réplica, a seu modo, ao universo de criação originalíssima que é o do pintor que sempre soube excursionar de maneira muito pessoal pelo mito, altamente legítimo e inteiramente salubre.

No que lhe diz parte, a sua viagem pessoal dentro do surrealismo tem sempre sido uma heterodoxa maneira de encarar o mundo e os seus prestígios ou apoquentações dum ponto de vista filho da curiosidade, da indagação visando as possíveis descobertas, da ligação aos segredos da existência a que podemos ter algum acesso se mantivermos a mente aberta e atenta ao que se vai passando e que vem a seguir ao que se passou em anos de que a nossa vida esteve repleta – não só os factos da história social, quotidiana, mas tudo o que se pôde imaginar de fecundo ou mesmo possível: a magia que parte da escrita ou a ela conduz, a pintura no mundo próprio ou alheio – e tudo o resto que nestas duas se consubstanciam.

                                                              *                                   

Duas cartas de Cruzeiro Seixas

1.

Amigo Nicolau Saião

Não são nada satisfatórias as notícias daqui.

O que vai sendo noticiado não é de forma alguma o que verdadeiramente tem a ver comigo e com o Surrealismo.

Vivemos em sociedade e nela, quer queiramos quer não, uma enormíssima parte de nós está integrada. Gritamos liberdade, liberdade, liberdade do fundo de uma prisão. Além disso tenho 97 anos e a minha vista não me permite que leia uma linha. Os seus livros deram-me enorme satisfação mas tenho que esperar por alguém disposto a ler-me algumas páginas.

Mesmo nestas circunstâncias é sempre um prazer encontrar um velho amigo como o é o Nicolau Saião. Destes últimos acontecimentos envio-lhe um catálogo onde pode ler alguns desaforismos da minha autoria.

Felicitando-me pela receção dos seus livros, felicito-o pela constância da sua visão.

Infelizmente já não me vai ser possível, naturalmente, voltar a Portalegre, à casa do Régio e às manufacturas de tapeçarias, mas no entanto espero ainda o rever.

Por hoje fica a gratidão comovida, o velho abraço e os melhores votos, do

“Com a admiração e a amizade do Cruzeiro Seixas”

 Artur (escrito pelo seu punho)   

                                                                      28 Março 2018

Cruzeiro Seixas

2.

Amigo Saião

Não é para mim nem para si satisfatória a resposta que posso dar a uma longa carta. Os meus 97 anos tornam o dia-a-dia muito difícil… É uma série infinita de impossibilidades, como a de ler e desenhar.

Passei despercebido mas fui “amado” por gente como o Cesariny, o Herberto Hélder; e sobre o que fiz, escreveram críticos, como Edouard Jaguer, José Pierre, Franklin Rosemont, etc.

Meus pais não tinham meios para me possibilitar a frequência de um curso e assim, durante toda a minha vida, vivi em empregos desenhando dentro da gaveta da minha secretária, isto desde 1948.

Evidentemente que nunca tive um “atelier”…Essas gavetas e a minha homossexualidade foram a grande família da minha liberdade.

Envio-lhe fotocópias de um texto de Cesariny e outro de Ernesto Sampaio.

Hoje estou numa instituição que dá pelo nome de “Casa do Artista”, onde falta espaço, alimentação, etc. etc.

A “minha obra” parece-me a mim ter sido mais em quantidade do que em qualidade.

A maior parte dos artistas que conheço são grandes comerciantes; eu, pelo contrário, dei, perdi, deixei roubar a maior parte daquilo que fiz.

Disso me envaideço imenso. E tudo isto me dá um acréscimo de consciência e responsabilidade, que muito prezo.

Acresce a estas dificuldades, que são jovens que fazem o grande favor de escrever estas cartas e ler uma página aqui e ali dos livros que recebo.

O seu nome é uma garantia de honestidade intelectual e é uma das companhias possíveis neste acanhado espaço geográfico.

Comovidamente lhe agradeço que se tenha lembrado de mim.

O abraço forte e os melhores votos do…

                                                                        Artur

                                                                                      17/06/2018

(O papel destas duas cartas tem, ao cimo, impresso um desenho – uma espécie de ex-libris – constituído por um cavalo cuja cabeça é uma mão empunhando uma caneta de aparo, das que se usavam na escola)  

domingo, 5 de julho de 2026

66 / Baião Modesto, "Amin Farahvar", in "A Encontrar o Caminho de Volta" (a publicar)

AMIN  FARAHAVAR 

(poeta iraniano)


Não podem enforcar versos,

não têm pescoço. Enforcam os poetas.

Esmeram-se com a escolha da corda,

com a madeira do patíbulo - é um tacto

de delicadeza amoral.

Ser vendedor de fruta e com idade

com que os gregos aprendiam filosofia

é subversivo.

Os Guardas do Islamismo receiam

que se espalhem granadas de versos.

Puxa-se a espoleta e há poesia.

Os versos são estilhaços.                                                                   

65 / Luís Palma Gomes, "Irremediável"


Irremediável


A vida é tão pouco. 

Talvez por isso a gata durma, irremediável, na marquise. 

Lá sabe ela que pouco mais temos do que o sol,

 e a noite, quando chega, parece vir para sempre.


O comboio finge que passa, mas não. 

Volta e revolta, a toda a hora. 

Dirão que é outro comboio, outros passageiros.

 Mas o que passa por aqui 

é sempre o mesmo comboio, sempre as mesmas pessoas.


Conheci-as noutros tempos. 

Quando as revejo, calo-me e sigo. 

Temos vergonha uns dos outros, porque não conseguimos sair daqui.

terça-feira, 16 de junho de 2026

63 / Luís Palma Gomes, "Da extrema instabilidade animal"


Da extrema instabilidade animal


Talvez seja demasiado extravagante dizer-me

uma borboleta dentro do furacão. 

Talvez seja demasiado densa

esta leveza atirada assim do peito para nenhures. 


Fecho os olhos, devagar,

como um gato prometendo amor; 

tento chegar aos versos

que pensei há meia hora atrás

e não me lembro deles. 


Assim, mais não fosse, 

há neste esquecimento a prova suficiente 

de que uma borboleta precisa

para se desculpar com o vento.

sábado, 9 de maio de 2026

56 / Humberto Santos escreve sobre Nhelas Spencer e o livro de Eutrópio Lima da Cruz e César Monteiro


Nhelas Spencer: O génio da escassez

Li com verdadeiro prazer “Nhelas Spencer, Trajetória & Dimensão Poética do Compositor”, de Eutrópio Lima da Cruz e César Monteiro. A obra resgata à luz pública o compositor e instrumentista Daniel Spencer Brito, Nhelas Spencer, cuja grandeza artística tantas vezes se dilui na discrição do próprio.

Os autores abordam-no a partir de ângulos complementares. César Monteiro privilegia uma leitura ancorada na sociologia da música, enquanto Eutrópio Lima da Cruz constrói uma abordagem de natureza musicológica, institucional e documental. Dessa convergência emerge um retrato sólido e multifacetado.

Da leitura, sobressaem três traços essenciais da sua dimensão artística e humana.

O primeiro é a centralidade da escassez como matriz estética, como sublinha César Monteiro. A privação, material e formativa, não surge como obstáculo, mas como matéria-prima. A aridez, a falta de água e a dureza do quotidiano inscrevem-se na sua obra como uma poética de pertença, um amor inquebrantável pelo “torrão” natal, mesmo quando este se revela hostil. Temas como “Torrão di meu”, “Nha Terra Escalabrode” ou “Ti Jom Poca” cristalizam essa tensão entre dureza e afecto. Paralelamente, a aprendizagem empírica, feita de ouvido e de observação, apurou uma intuição musical rara. Nhelas confirma, assim, que a criatividade não depende de condições ideais; muitas vezes, nasce contra elas.

O segundo aspeto é o seu papel na reconfiguração temática da coladeira. Num contexto em que o género foi, durante décadas, veículo de sátira frequentemente dirigida às mulheres, como se observa em compositores como Ti Goi ou Frank Cavaquim, Nhelas terá introduzido uma inflexão ética. A coladeira, na sua mão, abandona o tom machista e torna-se espaço de dignificação feminina. Canções como “Amdjer ca bitche”, “Amdjer n’Afronta”, “Dsilusão dum amdjer”, “Sodade tem pena d’mi” ou “Mãe d’fidje” não apenas rompem com uma tradição, mas instauram uma nova sensibilidade no género.

Por fim, destaca-se a sua versatilidade. Um raro equilíbrio entre virtuosismo técnico e acuidade social. A formação clássica, consolidada na Escola de Arte de Bucareste, refinou o instinto moldado na infância, permitindo-lhe introduzir harmonias mais “ousadas” e modulações invulgares na morna e na coladeira. Mas a técnica, por si só, não explica a permanência da sua obra. Nhelas escuta e traduz. Funciona como um cronista musical da sociedade cabo-verdiana ou um sociólogo munido de uma guitarra que, com base na escuta e na observação social, escreve temas imortais que retratam a idiossincrasia cabo-verdiana.

Talvez, contudo, o contributo mais duradouro deste projeto editorial resida na inclusão de uma antologia com letras e partituras anotadas. Mais do que complemento, trata-se de um gesto de preservação, um arquivo necessário para que o legado de Nhelas Spencer não dependa apenas da memória, sempre frágil, mas também do registo, que resiste ao tempo.

55 / No final de Maio, na Associação Caboverdeana, Lisboa, lançamento de "O Último Comício da Loba", de Humberto Santos. Apresentação de Joaquim Saial

terça-feira, 24 de março de 2026

54 / In "As Novas Vozes", recente livro de Nicolau Saião


A propósito de televisão

Desde há cerca de trinta anos que a denominada sociedade ocidental participa numa mutação tecnológica acelerada a que, por vezes, não consegue dar resposta adequada no campo espiritual. O nosso mundo conceptual transfigurou-se duma maneira brusca e tal facto tem condicionado o nosso universo de relação. Há factores exógenos e outros endógenos, nem sempre bem meditados ou enfrentados com perspicácia ou capacidade para bem gerir a vida colectiva. E não falamos agora, é claro, nas tentativas deliberadas de orientar a realidade em direcções que só acarretam prejuízos às populações.

Ora, a televisão, como meio privilegiado e totalizador a nível de comunicação de massas, reflecte com enorme relevo esse panorama inquietante.

Numa obra saída há já algum tempo, o pensador Alexander Himmelweit diz-nos a dado passo que “a visão do mundo apresentada pela televisão afecta o comportamento real dos telespectadores em função das tendências que se têm e que através dela são pois reforçadas. Verifica-se assim que a televisão orienta comportamentos pré-dispostos.”. O problema é que, como referia noutro estudo o sociólogo Alain Dickinson, “apanhada num fluxo turbulento de mudança, além de intelectualmente confusa, a pessoa sente-se desorientada no plano dos valores pessoais; à medida que o ritmo se acelera, à confusão juntam-se a dúvida acerca de si mesma, podendo comparecer a ansiedade e o medo. À medida que o tempo decorre, a pessoa torna-se tensa e chega a cansar-se com facilidade, ficando mais permeável à doença. Com o aumento implacável das pressões habilmente induzidas, a tensão transforma-se em irritabilidade e, por vezes, em cólera e até violência – que, por outros meios socialmente directos, o poder canaliza então em direcções que lhe interessam. Ninharias desencadeiam grandes reacções; grandes acontecimentos, reacções insignificantes”.

Ou seja, é-se objecto de arteira manipulação.

Antes de passarmos adiante gostaria de referir que recentemente, num dos laboratórios de ponta duma famosa universidade europeia, foi levada a efeito uma experiência com pessoas de várias etnias e de diversos níveis etários. E concluiu-se que a música – principalmente certo tipo de música – actua nos mesmos centros cerebrais onde actuam as drogas.

E, a talho de foice, pergunto: será por isso que nos últimos tempos, principalmente nos meios radiofónicos – aliás caracterizados por uma enorme mediocridade – são incessantemente emitidos programas musicais e, mesmo, maioritariamente entrevistados ou epigrafados protagonistas desse mundo (além, é claro, das consabidas rubricas sobre política partidária e futebol)?

De há uns tempos até agora, tem-se voltado a falar com intensidade na questão da violência veiculada pela televisão. Determinados próceres da política à portuguesa, com aprumo jesuítico têm vindo a lume com pezinhos de lã sugerindo diversas formas de controle (de censura, que é o que lhe subjaz) contra a violência que se exprime através de películas com tiros a granel e pancadaria de criar bicho. No entanto, com a sua efígie mesureira e hipócrita no limite, geralmente deixam de fora – claro! – outras formas graves de violência, mais disfarçada e insidiosa que, quando muito, tocam pela rama: o espectáculo da lagrimeta, do sentimentalismo bacoco e do humorismo que não passa de propaganda partidária/governamental mal-disfarçada, o apelo à contemplação do mexerico e da bisbilhotice, os trechos elementares ou boçais geralmente protagonizados por luminárias da frivolidade básica ou embandeirada do jet set. As rubricas de opinião ou de comentário que não passam de ideologia torcida, os talk shows pretensamente modernaços que se apoiam, notoriamente, num certo erotismo para primários que não é mais que pornografia manhosa e sem subtileza.

E não devemos esquecer que a pornografia, como o denotou Sarane Alexandrian e tantos outros, com a sua carga “comercialista” evidente, é um dos sinais típicos do recalcamento injectado pelo fideísmo eclesial ou partidário, essa suma violência dos espíritos em que se exprime a monomania.

Aproveitando-se dos traumas e dos preconceitos duma sociedade bloqueada ou disfuncional no plano afectivo, estas formas disfarçadas de violência, mas não menos mistificadora e perigosa, têm como objectivo criar audiências teledependentes, uma vez que estas são o suporte da publicidade, que é uma das faces do império dos negócios. E, quando digo império, quero significar o economicismo sem pudor e sem freio, não a legítima troca ou compra-e-venda que subjaz e conforma uma fase característica de existência societária.

O que, evidentemente, a manipulação televisiva tenta estabelecer, é a criação de seres supranumerários, em quem a docilidade é adquirida de maneira progressiva e serena, predispondo o grande público para a passividade, a ausência de calor humano, de solidariedade e a dispersão/banalização dos sentimentos, ligando-se a ideias colectivas sob a batuta de gurus e de condottieris cheios de lábia que, de forma suave e afectuosa, estabelecem o primado do justamente descrito como “ur-fascismo doce”, que um dos líderes do sinistro “Grupo Bilderberg” estabeleceu como sendo o efeito de “em vez de seres levado à matraca, és conduzido com jeitinho e ternura”…

A televisão, que podia ser um meio qualificado de comunicabilidade humanizada – e nos melhores casos (sem a velhacaria dos que com ou sem máscaras desprezam o cidadão e o ser humano por extenso) é de facto um veículo de qualidade (lembremo-nos por exemplo de notáveis documentários da BBC, dos concertos austríacos, das peças de teatro francesas e de alguns especialistas espanhóis e lusos) – tem sido levada por maus caminhos por esses émulos de pequenos goebbels que usualmente a conseguiram colonizar por obra e graça do politicamente correcto e do descaramento estatal que, nos casos mais sintomáticos e impudicos, tentam fazer de nós todos idiotas úteis

domingo, 15 de março de 2026

53 / Atingidas 10.000 visitas, no Teclas & Teclas

 

52 / Luís Palma Gomes, "Sedimentos"

Sedimentos


Vento, pele, cabelo,

a tampa da caneta baloiçando sobre a mesa verde.

O ruído da mota lá atrás, a paisagem sonora,

ora perto, ora fora, ora em movimento,

aproximando-se e afastando-se ao mesmo tempo,

como uma daquelas peles de cobra onde escreviam os antigos,

palavras que se desenrolam, ondas de mar,

arrebentando na praia,

ao pé dos ouvidos, da boca, ou apenas da memória,

essa praia dos sedimentos que vão ficando, 

moldados como castelos de areia do tamanho de uma maré.


domingo, 25 de janeiro de 2026

51 / Nicolau Saião, "As Novas Vozes"

O livro é de fôlego, quase 300 páginas, compilação de textos e poemas de uma das vozes literárias mais eruditas do interior português - alentejano, no caso, e em particular de Portalegre e seu aro. Saiu no final de 2025 pela Amazon no Brasil e EUA, com organização e aparato crítico de Floriano Martins, ilustração de Nina Piranesi e prefácio de Luís Barreiros. É esse prefácio que aqui divulgamos, para já. Em próximos posts, serão mostrados alguns textos e poemas do livro.

Nicolau Saião e a persistência do surrealismo como insurreição do real

Ao vaguear pelas páginas de "As Novas Vozes", o leitor não se encontra perante uma mera coletânea de textos, mas diante de uma incursão vívida num território onde a palavra, tal como no manifesto fundacional de André Breton (1924), se faz “exploração do pensamento em ausência de qualquer controlo exercido pela razão, fora de qualquer preocupação estética ou moral”. Nicolau Saião, escritor de rara lucidez e densidade poética, inscreve-se na genealogia mais legítima do surrealismo, quer enquanto movimento literário e artístico, quer como atitude ética de insurgência contra os automatismos ideológicos e as prisões da consciência normativa. Desde os seus vínculos históricos com o Bureau Surrealista Alentejano e, mais tarde, com o Bureau Surrealista de Lisboa, Saião estabeleceu uma ponte viva com figuras tutelares do surrealismo português, como Mário Cesariny e Cruzeiro Seixas, com quem manteve diálogos criativos, correspondência e cumplicidade estética. Porém, o seu trabalho ultrapassa o mero exercício de continuidade: nele, reencontramos o espírito de Artaud, a violência simbólica de Benjamin Péret, e a imagética transgressora que reconfigura o real, tal como o inconsciente o reconfigura nos sonhos. 

A obra reunida neste volume – entre entrevistas, evocações críticas e poemas – dá corpo a essa lógica subterrânea, muitas vezes onírica, onde o tempo histórico é atravessado por vozes fantasmáticas, duplos, restos diurnos e pulsões recalcadas. Como bem o diagnosticou Freud em Die Traumdeutung (1900), o sonho é a via régia para o inconsciente – e é precisamente essa via que Saião percorre com rigor, humor e uma pungente ironia. Os seus textos instalam-se na fenda entre o manifesto e a ficção, entre a lucidez poética e o delírio organizado, numa filiação que Lacan (1966) veria como “o real enquanto impossível”. 

Não será despropositado afirmar que Nicolau Saião contribui, com esta obra, para um dos grandes desígnios do surrealismo: o reencantamento do mundo através da palavra poética, da imagem insólita, da liberdade simbólica. Como o próprio escreveu em “NS, um voo sobre o surrealismo”, trata-se de “erguer-se contra a história” e de “emitir sinais para além do convencionado”. Essa resistência ativa ao apagamento do imaginário faz da sua escrita um gesto clínico – no sentido freudiano do termo – onde a linguagem não é sintoma de uma doença social, mas operação simbólica de libertação. 

Num tempo em que os automatismos do consumo e da ideologia diluem o sujeito na linguagem publicitária, Nicolau Saião insiste em manter acesa a faísca do desejo. O seu surrealismo não é apenas memória de um movimento, mas a emergência intempestiva de um pensamento do fora – do exílio, do anacrónico, da heterodoxia. Com "As Novas Vozes", o surrealismo português reencontra uma das suas vozes maiores, firmemente inscrita na cena internacional, mas também ferozmente enraizada numa topografia afetiva e ética que é, em última instância, aquela da poesia enquanto experiência radical do inconsciente.

Luís Barreiros

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

49 / José Carlos Costa Marques, "Uma Só Pétala"

Saído a 8 de Maio de 2025, chegou-nos recentemente o livro de José Carlos Costa Marques, "Uma Só Pétala", das Edições Sempre-em-Pé, editora de que o autor é proprietário. Trata-se de uma antologia de que respigamos um poema das várias e muito interessantes dezenas que a compõem.

 


Lenço branco

Não voltes aonde estiveste,

Não o encontrarás.

O que lá está é outro.

Outro também tu.

Porém, o que procuras, não o encontrando,

acena-te.

O branco lenço da fantasia, 

trémulo na amurada,

aproxima-se do cais saudando

ou será que se despede?

As duas coisas ele faz, pode fazer.

Soubera distingui-las!


Edições Sempre em Pé,

R. Camilo Castelo Branco, 70/5.2   4425-037 ÁGUAS SANTAS

jcdcm@sapo.pt

domingo, 4 de janeiro de 2026

48 / Revista de poesia e tradução "DiVersos" lança edição especial de 30 anos de vida com o n.º 39

A revista pode ser adquirida por 12€ junto do editor. 
Contactar  jcdcm@sapo.pt

 



Livrarias que vendem a DiVersos 
(clicar nas imagens, para ver melhor)

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

47 / Em início de ano, uma crónica adequada, vinda de S. Paulo, Brasil - Maria Helena Sato, cabo-verdiana e mindelense (in "A Mulher de Lot")

O Olhar de Jano

(crónica de Ano Novo)


Na galeria de escolhas com as quais nos deparamos, a vida se deixa contornar por mudanças contínuas. Estas se tornam ainda mais significativas durante os rituais de passagem de ano. Também nessa época, aspirações múltiplas fazem cintilar, no mais profundo do ser, sementes de promissoras metas, propósitos e sonhos. 

A mitologia romana representa essa transição de um ano para outro na estátua de Jano, sentinela de dois rostos, imagem daquilo que foi e do que será: Jano olha, simultaneamente, para o passado e para o futuro. 

Do termo latino “janu” provém o nome dado ao primeiro mês do ano, “januarius”, que hoje se codifica na palavra “janeiro”. 

O começo de um ano novo certamente estimula o desejo humano de também possuir dois rostos. Poderíamos, assim, de um lado, olhar para o ano que termina, enquanto, com o outro rosto, contemplaríamos todas as possibilidades oferecidas pelo ano que se ergue, envolto em convicções e incertezas.  

É preciso, entretanto, cuidar desse olhar lançado para trás, pois ele permite, no mínimo, dois movimentos. 

Um deles consiste em tentar reviver o que se deveria ter abandonado. O outro é resgatar o que de bom se colheu, para trazê-lo ao presente e sobre ele alicerçar a renovação. No último caso, teremos nas mãos um verdadeiro tesouro. 

Tesouros como esse, guardados a cada ano, fazem de nós poderosos observadores. Subimos neles para aumentar o alcance do olhar e vislumbrar o sol do ano nascente. Para ultrapassar as fronteiras do horizonte. Para descobrir que não há limites na luta pelo bem.

É precisamente nesse ponto da descoberta que se dá a metamorfose. Confiante, o rosto se vira para a frente. Lança uma esperança tão iluminada que faz brilhar uma nova trilha a desembocar no futuro – com propósitos, sonhos e realizações, promessas de novos tesouros. Vislumbramos um mundo melhor, com potencialidades e desafios. Esse plano de ação nos fortalece e nos deixa prontos para mais 365 dias.   

Faça as malas, traga todos os seus tesouros... e tenha uma feliz mudança para mais um ano de Esperança!

Feliz 2026!

Maria Helena Sato (in "A Mulher de Lot")

46 / Um ano de vida do Teclas & Teclas, cumprido hoje

45 / O "Madeiro" de Penamacor, uma tradição também poética

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

44 / Adriano Miranda Lima, "Uma luz ao fundo da noite"


Uma luz ao fundo da noite

Conto de Natal dos tempos em que se vivia com pouco


Naquele tempo, anos quarenta do século passado, para o comum das pessoas de poucos recursos a celebração do Natal pouco mais era que um sentimento interiorizado e partilhado no seio das famílias. Numa época em que até escasseavam bens de primeira necessidade, imagine-se quão distante se estava do consumismo de hoje com as promoções e o Black Friday vulgarizados na actividade comercial.

No bairro onde vivia a Luzia a iluminação pública era escassa e nem todos os lares tinham luz eléctrica puxada para o interior das habitações. A véspera do Natal não era para ela diferente dos dias comuns. Como sempre, levantou-se aos primeiros alvores da madrugada para confeccionar os bolos e os salgados que vendia diariamente na vizinhança e nos estabelecimentos, para garantir o seu sustento. Mulher de rija têmpera, abandonada pelo marido há alguns anos, tinha da vida uma experiência agridoce, na sua maneira peculiar de sofrer as agruras do quotidiano sem hipotecar as reservas do seu ânimo. Os seus sessenta anos de idade foram-lhe ensinando desde cedo que o poder da imaginação logra por vezes autênticos milagres na busca de novos estímulos para a vida. Bastava-lhe a simples contemplação das estrelas distantes para pensar que algo mais haverá para lá do bairro onde se esgota a rotina da sua vida. Este e outros devaneios do género transformam-na, com frequência, em avatar da vida fervilhante das grandes cidades estrangeiras que uma ou outra vez viu estampadas em coloridos postais. Mas ela logo se devolve, satisfeita consigo própria e com o pouco que tem, à pobreza honrada do lugar em que exerce a soberania do seu viver. 

Este dia é véspera de Natal e seria mais um igual aos outros não fosse o sonho que ela vinha acalentando e queria ver realizado logo à noite. Foi na prateleira de uma loja de utilidades domésticas que o sonho da Luzia tinha começado a ganhar forma. Há muito que desejava ver-se livre do modesto candeeiro a petróleo que mal lhe alumiava a casa à noite. Pensava ela: − isto é coisa de fraco jeito, está mais que velho, fumega com frequência e não me dá aquela luz que entra pela alma dentro. E o que a seduziu? Um grande candeeiro de vidro, com um vistoso globo brilhante como cristal. Mulher de espírito fantasioso, seduzia-se com as figurinhas gravadas a estilete de aço no globo do candeeiro, que no seu entender só podiam ser obra de artista de outro mundo. 

E foi assim que começara desde há algum tempo a amealhar um escudo hoje, outro amanhã, e por vezes valores mais avultados quando o dia lhe corria de melhor feição no negócio do seu sustento. Arranjara um pote de barro com uma ranhura e dele fez o cofre que haveria de realizar o milagre da sua melhor prenda natalícia alguma vez recebida. 

Quando o Sol se pôs, a Luzia já estava em casa e esfregava as mãos de contente por ter realizado um dia de venda lucrativo. Compôs a sua mesa com especial esmero e nela dispôs os ingredientes da ceia natalícia, produto da sua própria confecção. Depois, quando já escurecia, foi buscar o ambicionado candeeiro dias antes comprado. Atestou-o de petróleo, aguardou que a torcida se embebesse do combustível, nivelou-a o suficiente, riscou um fósforo e chegou-lhe a chama. O compartimento foi subitamente inundado de uma luminosidade nunca vista na salinha da sua pequena casa. Ela elevou a torcida ainda um pouco mais, na ânsia de conferir à luz o máximo de incandescência, e de repente todo o interior da habitação quase pareceu ganhar padrões caleidoscópicos, realçando-se pormenores antes ocultados pela luz modesta do anterior candeeiro. Convidou a sua amiga e vizinha, a idosa Isabel, viúva e a viver só, para a ceia de Natal. E a Isabel teve logo este espontâneo desabafo, mal entrou: − Luzia, isto hoje está outra coisa, mulher! É como se a luz deste candeeiro lavasse e renovasse tudo, incluindo os nossos corações! A Luzia não coube em si de contente com o reparo da amiga. 

Cearam e conversaram longamente sobre o seu longínquo passado de raparigas novas, relembrando a dureza da vida, com as suas artimanhas e traições, mas também com as ilusões que se douram e se renovam com a luz do sol nascente de cada dia. A cumplicidade entre ambas tornava a Isabel a melhor confidente dos segredos do coração da amiga, cujas divagações do espírito mereciam sempre a sua concordância mesmo que muitas vezes as não entendesse. 

Despediram-se quando lá fora o silêncio da noite era ainda quebrado pelo estalejar de um ou outro retardatário foguete de Natal. Por fim, foram-se extinguindo os ruídos da noite, sempre mais pródiga de eflúvios em dias festivos. Luzia ficou acordada mais algum tempo, sozinha com os seus pensamentos, inalando sofregamente a luz do seu novo candeeiro, sentindo um revigoramento de alma, como que banhada por outra luz, uma luz celestial.

Nota: a redação deste texto obedeceu à ortografia anterior ao AO 90.

Tomar, 21 de Dezembro de 2025

domingo, 14 de dezembro de 2025

43 / Luís Palma Gomes, "A casa temporal"




A casa temporal


Sou, por agora, mistério em bruto,

sortilégio ainda incandescente.


São assim as manhãs de inverno,

quando o sol aparece sem avisar, 

para almoçar.


Se apenas existisse esta manhã,

seria suficiente:

o passado reconstituído

em filigrana,

o futuro coisa mínima,

carpa a nadar, previsível,

num lago semi coberto de folhas.


É isso o que faço:

exercito até ao meio-dia

a contenção do tempo.


Alguém, porém, bate

na porta grossa de carvalho

que construí para esta casa temporal.

Bate e insiste

com mãozinhas delicadas, 

afiadas e subtis;

insiste, insiste.


“Deve ser uma criança”, penso.


Quando abro a porta, ninguém.

Só uma sombra desce as escadas, apressada,

e deixa no tapete

uma carta fechada.

Prefiro não a ler, por enquanto.

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

41 / Luís Palma Gomes, "Ervas secas, quase mortas"


Ervas secas, quase mortas


Vós, que tivestes

todo o verão para florir,

e creio que cumpristes.


Os pássaros e os ratos

amavam-vos

por razões diversas,

mas não menos sinceras

e frutuosas.


Amavam-vos

como quem ama

a mãe,

o pai,

a própria pele.


Agora,

vossas folhas

acastanham lentamente.


Talvez a terra vos chame

em segredo

e para sempre.

Ou talvez não.


Talvez apenas adormeçais

no lume brando do chão,

no melhor dos refúgios

para quem perdeu, por agora,

alguma força.

sábado, 20 de setembro de 2025

40 / Jorge Amado (Itabuna, Brasil, 1912 – Salvador, Brasil, 2001) escrevendo à máquina

39 / Solange Firmino (Brasil), "Enseada de Junho"


Enseada de Junho


Não sei se amo mais o marujo, o vento

ou a maré que traz a desordem da espuma.

O cais inabitado é uma metáfora a decifrar

o silêncio do inverno.


Os barcos velhos ancorados, as velas rotas recolhidas

fazem pensar que só buscavam um porto de abrigo.

Até as aves marinhas alteram seus rumos.

Adio para amanhã mais uma tormenta.


Ao entardecer, percorro a orla da praia.

Espero a lua se acender no mar.

Só os uivos comovidos dos cães

me fazem companhia agora.


Foto Joaquim Saial