quinta-feira, 21 de maio de 2026
quarta-feira, 13 de maio de 2026
sábado, 9 de maio de 2026
56 / Humberto Santos escreve sobre Nhelas Spencer e o livro de Eutrópio Lima da Cruz e César Monteiro
Nhelas Spencer: O génio da escassez
Li com verdadeiro prazer “Nhelas Spencer, Trajetória & Dimensão Poética do Compositor”, de Eutrópio Lima da Cruz e César Monteiro. A obra resgata à luz pública o compositor e instrumentista Daniel Spencer Brito, Nhelas Spencer, cuja grandeza artística tantas vezes se dilui na discrição do próprio.
Os autores abordam-no a partir de ângulos complementares. César Monteiro privilegia uma leitura ancorada na sociologia da música, enquanto Eutrópio Lima da Cruz constrói uma abordagem de natureza musicológica, institucional e documental. Dessa convergência emerge um retrato sólido e multifacetado.
Da leitura, sobressaem três traços essenciais da sua dimensão artística e humana.
O primeiro é a centralidade da escassez como matriz estética, como sublinha César Monteiro. A privação, material e formativa, não surge como obstáculo, mas como matéria-prima. A aridez, a falta de água e a dureza do quotidiano inscrevem-se na sua obra como uma poética de pertença, um amor inquebrantável pelo “torrão” natal, mesmo quando este se revela hostil. Temas como “Torrão di meu”, “Nha Terra Escalabrode” ou “Ti Jom Poca” cristalizam essa tensão entre dureza e afecto. Paralelamente, a aprendizagem empírica, feita de ouvido e de observação, apurou uma intuição musical rara. Nhelas confirma, assim, que a criatividade não depende de condições ideais; muitas vezes, nasce contra elas.
O segundo aspeto é o seu papel na reconfiguração temática da coladeira. Num contexto em que o género foi, durante décadas, veículo de sátira frequentemente dirigida às mulheres, como se observa em compositores como Ti Goi ou Frank Cavaquim, Nhelas terá introduzido uma inflexão ética. A coladeira, na sua mão, abandona o tom machista e torna-se espaço de dignificação feminina. Canções como “Amdjer ca bitche”, “Amdjer n’Afronta”, “Dsilusão dum amdjer”, “Sodade tem pena d’mi” ou “Mãe d’fidje” não apenas rompem com uma tradição, mas instauram uma nova sensibilidade no género.
Por fim, destaca-se a sua versatilidade. Um raro equilíbrio entre virtuosismo técnico e acuidade social. A formação clássica, consolidada na Escola de Arte de Bucareste, refinou o instinto moldado na infância, permitindo-lhe introduzir harmonias mais “ousadas” e modulações invulgares na morna e na coladeira. Mas a técnica, por si só, não explica a permanência da sua obra. Nhelas escuta e traduz. Funciona como um cronista musical da sociedade cabo-verdiana ou um sociólogo munido de uma guitarra que, com base na escuta e na observação social, escreve temas imortais que retratam a idiossincrasia cabo-verdiana.
Talvez, contudo, o contributo mais duradouro deste projeto editorial resida na inclusão de uma antologia com letras e partituras anotadas. Mais do que complemento, trata-se de um gesto de preservação, um arquivo necessário para que o legado de Nhelas Spencer não dependa apenas da memória, sempre frágil, mas também do registo, que resiste ao tempo.
terça-feira, 24 de março de 2026
54 / In "As Novas Vozes", recente livro de Nicolau Saião
A propósito de televisão
Desde há cerca de trinta anos que a denominada sociedade ocidental participa numa mutação tecnológica acelerada a que, por vezes, não consegue dar resposta adequada no campo espiritual. O nosso mundo conceptual transfigurou-se duma maneira brusca e tal facto tem condicionado o nosso universo de relação. Há factores exógenos e outros endógenos, nem sempre bem meditados ou enfrentados com perspicácia ou capacidade para bem gerir a vida colectiva. E não falamos agora, é claro, nas tentativas deliberadas de orientar a realidade em direcções que só acarretam prejuízos às populações.
Ora, a televisão, como meio privilegiado e totalizador a nível de comunicação de massas, reflecte com enorme relevo esse panorama inquietante.
Numa obra saída há já algum tempo, o pensador Alexander Himmelweit diz-nos a dado passo que “a visão do mundo apresentada pela televisão afecta o comportamento real dos telespectadores em função das tendências que se têm e que através dela são pois reforçadas. Verifica-se assim que a televisão orienta comportamentos pré-dispostos.”. O problema é que, como referia noutro estudo o sociólogo Alain Dickinson, “apanhada num fluxo turbulento de mudança, além de intelectualmente confusa, a pessoa sente-se desorientada no plano dos valores pessoais; à medida que o ritmo se acelera, à confusão juntam-se a dúvida acerca de si mesma, podendo comparecer a ansiedade e o medo. À medida que o tempo decorre, a pessoa torna-se tensa e chega a cansar-se com facilidade, ficando mais permeável à doença. Com o aumento implacável das pressões habilmente induzidas, a tensão transforma-se em irritabilidade e, por vezes, em cólera e até violência – que, por outros meios socialmente directos, o poder canaliza então em direcções que lhe interessam. Ninharias desencadeiam grandes reacções; grandes acontecimentos, reacções insignificantes”.
Ou seja, é-se objecto de arteira manipulação.
Antes de passarmos adiante gostaria de referir que recentemente, num dos laboratórios de ponta duma famosa universidade europeia, foi levada a efeito uma experiência com pessoas de várias etnias e de diversos níveis etários. E concluiu-se que a música – principalmente certo tipo de música – actua nos mesmos centros cerebrais onde actuam as drogas.
E, a talho de foice, pergunto: será por isso que nos últimos tempos, principalmente nos meios radiofónicos – aliás caracterizados por uma enorme mediocridade – são incessantemente emitidos programas musicais e, mesmo, maioritariamente entrevistados ou epigrafados protagonistas desse mundo (além, é claro, das consabidas rubricas sobre política partidária e futebol)?
De há uns tempos até agora, tem-se voltado a falar com intensidade na questão da violência veiculada pela televisão. Determinados próceres da política à portuguesa, com aprumo jesuítico têm vindo a lume com pezinhos de lã sugerindo diversas formas de controle (de censura, que é o que lhe subjaz) contra a violência que se exprime através de películas com tiros a granel e pancadaria de criar bicho. No entanto, com a sua efígie mesureira e hipócrita no limite, geralmente deixam de fora – claro! – outras formas graves de violência, mais disfarçada e insidiosa que, quando muito, tocam pela rama: o espectáculo da lagrimeta, do sentimentalismo bacoco e do humorismo que não passa de propaganda partidária/governamental mal-disfarçada, o apelo à contemplação do mexerico e da bisbilhotice, os trechos elementares ou boçais geralmente protagonizados por luminárias da frivolidade básica ou embandeirada do jet set. As rubricas de opinião ou de comentário que não passam de ideologia torcida, os talk shows pretensamente modernaços que se apoiam, notoriamente, num certo erotismo para primários que não é mais que pornografia manhosa e sem subtileza.
E não devemos esquecer que a pornografia, como o denotou Sarane Alexandrian e tantos outros, com a sua carga “comercialista” evidente, é um dos sinais típicos do recalcamento injectado pelo fideísmo eclesial ou partidário, essa suma violência dos espíritos em que se exprime a monomania.
Aproveitando-se dos traumas e dos preconceitos duma sociedade bloqueada ou disfuncional no plano afectivo, estas formas disfarçadas de violência, mas não menos mistificadora e perigosa, têm como objectivo criar audiências teledependentes, uma vez que estas são o suporte da publicidade, que é uma das faces do império dos negócios. E, quando digo império, quero significar o economicismo sem pudor e sem freio, não a legítima troca ou compra-e-venda que subjaz e conforma uma fase característica de existência societária.
O que, evidentemente, a manipulação televisiva tenta estabelecer, é a criação de seres supranumerários, em quem a docilidade é adquirida de maneira progressiva e serena, predispondo o grande público para a passividade, a ausência de calor humano, de solidariedade e a dispersão/banalização dos sentimentos, ligando-se a ideias colectivas sob a batuta de gurus e de condottieris cheios de lábia que, de forma suave e afectuosa, estabelecem o primado do justamente descrito como “ur-fascismo doce”, que um dos líderes do sinistro “Grupo Bilderberg” estabeleceu como sendo o efeito de “em vez de seres levado à matraca, és conduzido com jeitinho e ternura”…
A televisão, que podia ser um meio qualificado de comunicabilidade humanizada – e nos melhores casos (sem a velhacaria dos que com ou sem máscaras desprezam o cidadão e o ser humano por extenso) é de facto um veículo de qualidade (lembremo-nos por exemplo de notáveis documentários da BBC, dos concertos austríacos, das peças de teatro francesas e de alguns especialistas espanhóis e lusos) – tem sido levada por maus caminhos por esses émulos de pequenos goebbels que usualmente a conseguiram colonizar por obra e graça do politicamente correcto e do descaramento estatal que, nos casos mais sintomáticos e impudicos, tentam fazer de nós todos idiotas úteis…
domingo, 25 de janeiro de 2026
51 / Nicolau Saião, "As Novas Vozes"
O livro é de fôlego, quase 300 páginas, compilação de textos e poemas de uma das vozes literárias mais eruditas do interior português - alentejano, no caso, e em particular de Portalegre e seu aro. Saiu no final de 2025 pela Amazon no Brasil e EUA, com organização e aparato crítico de Floriano Martins, ilustração de Nina Piranesi e prefácio de Luís Barreiros. É esse prefácio que aqui divulgamos, para já. Em próximos posts, serão mostrados alguns textos e poemas do livro.
Nicolau Saião e a persistência do surrealismo como insurreição do real
A obra reunida neste volume – entre entrevistas, evocações críticas e poemas – dá corpo a essa lógica subterrânea, muitas vezes onírica, onde o tempo histórico é atravessado por vozes fantasmáticas, duplos, restos diurnos e pulsões recalcadas. Como bem o diagnosticou Freud em Die Traumdeutung (1900), o sonho é a via régia para o inconsciente – e é precisamente essa via que Saião percorre com rigor, humor e uma pungente ironia. Os seus textos instalam-se na fenda entre o manifesto e a ficção, entre a lucidez poética e o delírio organizado, numa filiação que Lacan (1966) veria como “o real enquanto impossível”.
Não será despropositado afirmar que Nicolau Saião contribui, com esta obra, para um dos grandes desígnios do surrealismo: o reencantamento do mundo através da palavra poética, da imagem insólita, da liberdade simbólica. Como o próprio escreveu em “NS, um voo sobre o surrealismo”, trata-se de “erguer-se contra a história” e de “emitir sinais para além do convencionado”. Essa resistência ativa ao apagamento do imaginário faz da sua escrita um gesto clínico – no sentido freudiano do termo – onde a linguagem não é sintoma de uma doença social, mas operação simbólica de libertação.
Num tempo em que os automatismos do consumo e da ideologia diluem o sujeito na linguagem publicitária, Nicolau Saião insiste em manter acesa a faísca do desejo. O seu surrealismo não é apenas memória de um movimento, mas a emergência intempestiva de um pensamento do fora – do exílio, do anacrónico, da heterodoxia. Com "As Novas Vozes", o surrealismo português reencontra uma das suas vozes maiores, firmemente inscrita na cena internacional, mas também ferozmente enraizada numa topografia afetiva e ética que é, em última instância, aquela da poesia enquanto experiência radical do inconsciente.
Luís Barreiros
quinta-feira, 8 de janeiro de 2026
49 / José Carlos Costa Marques, "Uma Só Pétala"
Saído a 8 de Maio de 2025, chegou-nos recentemente o livro de José Carlos Costa Marques, "Uma Só Pétala", das Edições Sempre-em-Pé, editora de que o autor é proprietário. Trata-se de uma antologia de que respigamos um poema das várias e muito interessantes dezenas que a compõem.
Lenço branco
Não voltes aonde estiveste,
Não o encontrarás.
O que lá está é outro.
Outro também tu.
Porém, o que procuras, não o encontrando,
acena-te.
O branco lenço da fantasia,
trémulo na amurada,
aproxima-se do cais saudando
ou será que se despede?
As duas coisas ele faz, pode fazer.
Soubera distingui-las!
Edições Sempre em Pé,
R. Camilo Castelo Branco, 70/5.2 4425-037 ÁGUAS SANTAS
jcdcm@sapo.pt
quinta-feira, 1 de janeiro de 2026
quarta-feira, 30 de abril de 2025
quarta-feira, 16 de abril de 2025
24 / Ainda de 2024, mais um livro do prolífico autor brasileiro Juergen Heinrich Maar: "150 Sonetos à Moda Antiga", ed. Officio, Florianópolis, Brasil, 2024
quinta-feira, 3 de abril de 2025
domingo, 2 de março de 2025
19 / Saído em 2024 no Brasil, mais um livro de Juergen Heinrich Maar: "Goethe e a Química", ed. Officio, Florianópolis, Brasil, 2024
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025
15 / Do poeta José Vultos Sequeira, chegou ao T&T pela mão do eng. António Jacinto Marques o livro "Onde Nasce a Água" (2019)
Da badana da capa do livro: José Vultos Sequeira nasceu em Mora, em 1944. Autodidacta, publicou os seus primeiros versos nos anos 70 na revista "Eva" e no jornal "O Diário", numa página de poesia e também de temática infanto-juvenil, da responsabilidade de Mário Castrim e Alice Vieira. Nos anos 80 publicou livros para crianças e poesia, premiados pela Associação Portuguesa de Escritores, Fundação Calouste Gulbenkian e Associação 25 de Abril. Tem mais de uma dezena de livros publicados. Dado que na badana da contracapa se indica que não se podem fazer reproduções da obra e não conhecemos o autor, ficará para outra ocasião a passagem no T&T de alguns dos seus interessantes poemas.
Título: "Onde Nasce a Água"
Colecção: palavras escritas
Revisão do texto: Ana Mendo
Design e paginação: Augusto Nunes
Impressão e acabamentos: Oficinas Gráficas do Banco de Portugal
Patrocínio: Grupo Desportivo e Cultural do Banco de Portugal
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025
14 / Saído recentemente no Brasil, T&T tem o gosto de revelar "Conexões", de Juergen Heinrich Maar, ed. Officio, Florianópolis, Brasil, 2024
domingo, 19 de janeiro de 2025
8 / De "Vinhetas", de Juergen Heinrich Maar (Brasil), excerto do texto "Livros, ontem e hoje", ed. Officio, Florianópolis, Brasil, 2023
Acabo de ser presenteado com um livro de Química destinado ao ensino médio, não um livro didáctico, muito menos um livro de texto, mas um livro que quer mostrar de modo atraente as "maravilhas da Química" (não é o título do livro). A inesperada doação ressuscitou na memória (daquela parte da memória já considerada como 'inútil') uma fieira de textos de química destinados à faixa etária que começa, mas vai além do ensino médio. É bastante sugestivo o estabelecimento de comparações, e, atrevo-me a dizê-lo, de uma geralmente não vista linearidade na evolução desses acúmulos de conteúdos.
Fui aluno, estudante e professor de Química. Aluno no final da década dde 1950, estudante na década de 1960, professor desde a década de 1970 e historiador da Química desde a década de 1990. Quando fui aluno de colégio, o ensino superior ainda ostentava suas cátedras vitalícias, cujos poderosos tritulares na maioria das vezes indicavam do rolde seus assistentes os seus sucessores. Quando fui estudante, o ensino superior já vinha passando por sucessivas mudanças, algumas para o bem, outras eram antes prejudiciais. Agora, aposentado e independente, perco-me ao pensar no cipoal [dificuldade] de todos esses papéis, normas, relatórios, propostas, minutas... falta ainda o necessário distanciamento cronológico para uma avaliação (mais ou menos) isenta. Mas já se pode perceber que crescentemente a fiorma passou a ser mais importante que o conteúdo.
Mas estou me distanciando do assunto evocado pelo presente em forma de livro. De modo algum eu tinha em mente uma discussão ou tratado sobre livros didácticos de Química, seria pretensioso da minha parte, já não sou entendido no assunto. Não sou entendido, mas tenho opinião, e principalmente décadas de experiência. E pretendia tão somente registar (longe de mim avaliar) como eram esses livros em cada época que vivenciei: livros texto e outras obras didáticas,manuais e roteiros de experiências, alguma literatura para "despertar o interesse" pela ciência (não levando em conta, nessa tareefa inútil, o que cada um realmente queria, mais ou menos como no "meninas na ciência" de hoje).
terça-feira, 7 de janeiro de 2025
6 / "Cálculo das Impossibilidades", novo livro de Luís Palma Gomes
Com 60 páginas recheadas de excelente poesia, saiu no passado mês de Dezembro, em edição de autor, mais um livro de Luís Palma Gomes, "Cálculo das impossibilidades". A capa e a composição são de Beatriz Rações, a ilustração de Ricardo Andrade e a fotografia de Filipe Silva. A obra divide-se em quatro livros, nomeados como "Entristecer", "Transformar", "Desejar" e "Existir". Do primeiro, um poema:
Um ato isolado
Nuno Júdice, in memoriam
Às vezes tenho a sensação que só o poeta é feliz,
e por poucos segundos apenas.
Constrói uma casa com o vapor do duche,
senta-se depois confortável lá dentro
ou deita-se de barriga para cima
a contemplar o teto a passar.
Até que alguém - que não sabe ao que vem -
abre a porta e deixa entrar o vento da multidão.
Talvez poucos saibam, mas a poesia é um T0
num subúrbio discreto (para não lhe chamar outra coisa pior).
E torna-se insuportável com muita gente lá dentro.
É pena ter que dizê-lo, logo num dia tão bonito,
que a poesia é insocial.
O livro encontra-se à venda na Livraria Poesia Incompleta, Rua de São Ciro, 26 Lisboa (à Lapa, perto do Jardim da Estrela).

























