terça-feira, 24 de março de 2026

54 / In "As Novas Vozes", recente livro de Nicolau Saião


A propósito de televisão

Desde há cerca de trinta anos que a denominada sociedade ocidental participa numa mutação tecnológica acelerada a que, por vezes, não consegue dar resposta adequada no campo espiritual. O nosso mundo conceptual transfigurou-se duma maneira brusca e tal facto tem condicionado o nosso universo de relação. Há factores exógenos e outros endógenos, nem sempre bem meditados ou enfrentados com perspicácia ou capacidade para bem gerir a vida colectiva. E não falamos agora, é claro, nas tentativas deliberadas de orientar a realidade em direcções que só acarretam prejuízos às populações.

Ora, a televisão, como meio privilegiado e totalizador a nível de comunicação de massas, reflecte com enorme relevo esse panorama inquietante.

Numa obra saída há já algum tempo, o pensador Alexander Himmelweit diz-nos a dado passo que “a visão do mundo apresentada pela televisão afecta o comportamento real dos telespectadores em função das tendências que se têm e que através dela são pois reforçadas. Verifica-se assim que a televisão orienta comportamentos pré-dispostos.”. O problema é que, como referia noutro estudo o sociólogo Alain Dickinson, “apanhada num fluxo turbulento de mudança, além de intelectualmente confusa, a pessoa sente-se desorientada no plano dos valores pessoais; à medida que o ritmo se acelera, à confusão juntam-se a dúvida acerca de si mesma, podendo comparecer a ansiedade e o medo. À medida que o tempo decorre, a pessoa torna-se tensa e chega a cansar-se com facilidade, ficando mais permeável à doença. Com o aumento implacável das pressões habilmente induzidas, a tensão transforma-se em irritabilidade e, por vezes, em cólera e até violência – que, por outros meios socialmente directos, o poder canaliza então em direcções que lhe interessam. Ninharias desencadeiam grandes reacções; grandes acontecimentos, reacções insignificantes”.

Ou seja, é-se objecto de arteira manipulação.

Antes de passarmos adiante gostaria de referir que recentemente, num dos laboratórios de ponta duma famosa universidade europeia, foi levada a efeito uma experiência com pessoas de várias etnias e de diversos níveis etários. E concluiu-se que a música – principalmente certo tipo de música – actua nos mesmos centros cerebrais onde actuam as drogas.

E, a talho de foice, pergunto: será por isso que nos últimos tempos, principalmente nos meios radiofónicos – aliás caracterizados por uma enorme mediocridade – são incessantemente emitidos programas musicais e, mesmo, maioritariamente entrevistados ou epigrafados protagonistas desse mundo (além, é claro, das consabidas rubricas sobre política partidária e futebol)?

De há uns tempos até agora, tem-se voltado a falar com intensidade na questão da violência veiculada pela televisão. Determinados próceres da política à portuguesa, com aprumo jesuítico têm vindo a lume com pezinhos de lã sugerindo diversas formas de controle (de censura, que é o que lhe subjaz) contra a violência que se exprime através de películas com tiros a granel e pancadaria de criar bicho. No entanto, com a sua efígie mesureira e hipócrita no limite, geralmente deixam de fora – claro! – outras formas graves de violência, mais disfarçada e insidiosa que, quando muito, tocam pela rama: o espectáculo da lagrimeta, do sentimentalismo bacoco e do humorismo que não passa de propaganda partidária/governamental mal-disfarçada, o apelo à contemplação do mexerico e da bisbilhotice, os trechos elementares ou boçais geralmente protagonizados por luminárias da frivolidade básica ou embandeirada do jet set. As rubricas de opinião ou de comentário que não passam de ideologia torcida, os talk shows pretensamente modernaços que se apoiam, notoriamente, num certo erotismo para primários que não é mais que pornografia manhosa e sem subtileza.

E não devemos esquecer que a pornografia, como o denotou Sarane Alexandrian e tantos outros, com a sua carga “comercialista” evidente, é um dos sinais típicos do recalcamento injectado pelo fideísmo eclesial ou partidário, essa suma violência dos espíritos em que se exprime a monomania.

Aproveitando-se dos traumas e dos preconceitos duma sociedade bloqueada ou disfuncional no plano afectivo, estas formas disfarçadas de violência, mas não menos mistificadora e perigosa, têm como objectivo criar audiências teledependentes, uma vez que estas são o suporte da publicidade, que é uma das faces do império dos negócios. E, quando digo império, quero significar o economicismo sem pudor e sem freio, não a legítima troca ou compra-e-venda que subjaz e conforma uma fase característica de existência societária.

O que, evidentemente, a manipulação televisiva tenta estabelecer, é a criação de seres supranumerários, em quem a docilidade é adquirida de maneira progressiva e serena, predispondo o grande público para a passividade, a ausência de calor humano, de solidariedade e a dispersão/banalização dos sentimentos, ligando-se a ideias colectivas sob a batuta de gurus e de condottieris cheios de lábia que, de forma suave e afectuosa, estabelecem o primado do justamente descrito como “ur-fascismo doce”, que um dos líderes do sinistro “Grupo Bilderberg” estabeleceu como sendo o efeito de “em vez de seres levado à matraca, és conduzido com jeitinho e ternura”…

A televisão, que podia ser um meio qualificado de comunicabilidade humanizada – e nos melhores casos (sem a velhacaria dos que com ou sem máscaras desprezam o cidadão e o ser humano por extenso) é de facto um veículo de qualidade (lembremo-nos por exemplo de notáveis documentários da BBC, dos concertos austríacos, das peças de teatro francesas e de alguns especialistas espanhóis e lusos) – tem sido levada por maus caminhos por esses émulos de pequenos goebbels que usualmente a conseguiram colonizar por obra e graça do politicamente correcto e do descaramento estatal que, nos casos mais sintomáticos e impudicos, tentam fazer de nós todos idiotas úteis

domingo, 15 de março de 2026

53 / Atingidas 10.000 visitas, no Teclas & Teclas

 

52 / Luís Palma Gomes, "Sedimentos"

Sedimentos


Vento, pele, cabelo,

a tampa da caneta baloiçando sobre a mesa verde.

O ruído da mota lá atrás, a paisagem sonora,

ora perto, ora fora, ora em movimento,

aproximando-se e afastando-se ao mesmo tempo,

como uma daquelas peles de cobra onde escreviam os antigos,

palavras que se desenrolam, ondas de mar,

arrebentando na praia,

ao pé dos ouvidos, da boca, ou apenas da memória,

essa praia dos sedimentos que vão ficando, 

moldados como castelos de areia do tamanho de uma maré.


domingo, 25 de janeiro de 2026

51 / Nicolau Saião, "As Novas Vozes"

O livro é de fôlego, quase 300 páginas, compilação de textos e poemas de uma das vozes literárias mais eruditas do interior português - alentejano, no caso, e em particular de Portalegre e seu aro. Saiu no final de 2025 pela Amazon no Brasil e EUA, com organização e aparato crítico de Floriano Martins, ilustração de Nina Piranesi e prefácio de Luís Barreiros. É esse prefácio que aqui divulgamos, para já. Em próximos posts, serão mostrados alguns textos e poemas do livro.

Nicolau Saião e a persistência do surrealismo como insurreição do real

Ao vaguear pelas páginas de "As Novas Vozes", o leitor não se encontra perante uma mera coletânea de textos, mas diante de uma incursão vívida num território onde a palavra, tal como no manifesto fundacional de André Breton (1924), se faz “exploração do pensamento em ausência de qualquer controlo exercido pela razão, fora de qualquer preocupação estética ou moral”. Nicolau Saião, escritor de rara lucidez e densidade poética, inscreve-se na genealogia mais legítima do surrealismo, quer enquanto movimento literário e artístico, quer como atitude ética de insurgência contra os automatismos ideológicos e as prisões da consciência normativa. Desde os seus vínculos históricos com o Bureau Surrealista Alentejano e, mais tarde, com o Bureau Surrealista de Lisboa, Saião estabeleceu uma ponte viva com figuras tutelares do surrealismo português, como Mário Cesariny e Cruzeiro Seixas, com quem manteve diálogos criativos, correspondência e cumplicidade estética. Porém, o seu trabalho ultrapassa o mero exercício de continuidade: nele, reencontramos o espírito de Artaud, a violência simbólica de Benjamin Péret, e a imagética transgressora que reconfigura o real, tal como o inconsciente o reconfigura nos sonhos. 

A obra reunida neste volume – entre entrevistas, evocações críticas e poemas – dá corpo a essa lógica subterrânea, muitas vezes onírica, onde o tempo histórico é atravessado por vozes fantasmáticas, duplos, restos diurnos e pulsões recalcadas. Como bem o diagnosticou Freud em Die Traumdeutung (1900), o sonho é a via régia para o inconsciente – e é precisamente essa via que Saião percorre com rigor, humor e uma pungente ironia. Os seus textos instalam-se na fenda entre o manifesto e a ficção, entre a lucidez poética e o delírio organizado, numa filiação que Lacan (1966) veria como “o real enquanto impossível”. 

Não será despropositado afirmar que Nicolau Saião contribui, com esta obra, para um dos grandes desígnios do surrealismo: o reencantamento do mundo através da palavra poética, da imagem insólita, da liberdade simbólica. Como o próprio escreveu em “NS, um voo sobre o surrealismo”, trata-se de “erguer-se contra a história” e de “emitir sinais para além do convencionado”. Essa resistência ativa ao apagamento do imaginário faz da sua escrita um gesto clínico – no sentido freudiano do termo – onde a linguagem não é sintoma de uma doença social, mas operação simbólica de libertação. 

Num tempo em que os automatismos do consumo e da ideologia diluem o sujeito na linguagem publicitária, Nicolau Saião insiste em manter acesa a faísca do desejo. O seu surrealismo não é apenas memória de um movimento, mas a emergência intempestiva de um pensamento do fora – do exílio, do anacrónico, da heterodoxia. Com "As Novas Vozes", o surrealismo português reencontra uma das suas vozes maiores, firmemente inscrita na cena internacional, mas também ferozmente enraizada numa topografia afetiva e ética que é, em última instância, aquela da poesia enquanto experiência radical do inconsciente.

Luís Barreiros

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

49 / José Carlos Costa Marques, "Uma Só Pétala"

Saído a 8 de Maio de 2025, chegou-nos recentemente o livro de José Carlos Costa Marques, "Uma Só Pétala", das Edições Sempre-em-Pé, editora de que o autor é proprietário. Trata-se de uma antologia de que respigamos um poema das várias e muito interessantes dezenas que a compõem.

 


Lenço branco

Não voltes aonde estiveste,

Não o encontrarás.

O que lá está é outro.

Outro também tu.

Porém, o que procuras, não o encontrando,

acena-te.

O branco lenço da fantasia, 

trémulo na amurada,

aproxima-se do cais saudando

ou será que se despede?

As duas coisas ele faz, pode fazer.

Soubera distingui-las!


Edições Sempre em Pé,

R. Camilo Castelo Branco, 70/5.2   4425-037 ÁGUAS SANTAS

jcdcm@sapo.pt

domingo, 4 de janeiro de 2026

48 / Revista de poesia e tradução "DiVersos" lança edição especial de 30 anos de vida com o n.º 39

A revista pode ser adquirida por 12€ junto do editor. 
Contactar  jcdcm@sapo.pt

 



Livrarias que vendem a DiVersos 
(clicar nas imagens, para ver melhor)

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

47 / Em início de ano, uma crónica adequada, vinda de S. Paulo, Brasil - Maria Helena Sato, cabo-verdiana e mindelense (in "A Mulher de Lot")

O Olhar de Jano

(crónica de Ano Novo)


Na galeria de escolhas com as quais nos deparamos, a vida se deixa contornar por mudanças contínuas. Estas se tornam ainda mais significativas durante os rituais de passagem de ano. Também nessa época, aspirações múltiplas fazem cintilar, no mais profundo do ser, sementes de promissoras metas, propósitos e sonhos. 

A mitologia romana representa essa transição de um ano para outro na estátua de Jano, sentinela de dois rostos, imagem daquilo que foi e do que será: Jano olha, simultaneamente, para o passado e para o futuro. 

Do termo latino “janu” provém o nome dado ao primeiro mês do ano, “januarius”, que hoje se codifica na palavra “janeiro”. 

O começo de um ano novo certamente estimula o desejo humano de também possuir dois rostos. Poderíamos, assim, de um lado, olhar para o ano que termina, enquanto, com o outro rosto, contemplaríamos todas as possibilidades oferecidas pelo ano que se ergue, envolto em convicções e incertezas.  

É preciso, entretanto, cuidar desse olhar lançado para trás, pois ele permite, no mínimo, dois movimentos. 

Um deles consiste em tentar reviver o que se deveria ter abandonado. O outro é resgatar o que de bom se colheu, para trazê-lo ao presente e sobre ele alicerçar a renovação. No último caso, teremos nas mãos um verdadeiro tesouro. 

Tesouros como esse, guardados a cada ano, fazem de nós poderosos observadores. Subimos neles para aumentar o alcance do olhar e vislumbrar o sol do ano nascente. Para ultrapassar as fronteiras do horizonte. Para descobrir que não há limites na luta pelo bem.

É precisamente nesse ponto da descoberta que se dá a metamorfose. Confiante, o rosto se vira para a frente. Lança uma esperança tão iluminada que faz brilhar uma nova trilha a desembocar no futuro – com propósitos, sonhos e realizações, promessas de novos tesouros. Vislumbramos um mundo melhor, com potencialidades e desafios. Esse plano de ação nos fortalece e nos deixa prontos para mais 365 dias.   

Faça as malas, traga todos os seus tesouros... e tenha uma feliz mudança para mais um ano de Esperança!

Feliz 2026!

Maria Helena Sato (in "A Mulher de Lot")

46 / Um ano de vida do Teclas & Teclas, cumprido hoje

45 / O "Madeiro" de Penamacor, uma tradição também poética