sábado, 9 de maio de 2026

56 / Humberto Santos escreve sobre Nhelas Spencer e o livro de Eutrópio Lima da Cruz e César Monteiro


Nhelas Spencer: O génio da escassez

Li com verdadeiro prazer “Nhelas Spencer, Trajetória & Dimensão Poética do Compositor”, de Eutrópio Lima da Cruz e César Monteiro. A obra resgata à luz pública o compositor e instrumentista Daniel Spencer Brito, Nhelas Spencer, cuja grandeza artística tantas vezes se dilui na discrição do próprio.

Os autores abordam-no a partir de ângulos complementares. César Monteiro privilegia uma leitura ancorada na sociologia da música, enquanto Eutrópio Lima da Cruz constrói uma abordagem de natureza musicológica, institucional e documental. Dessa convergência emerge um retrato sólido e multifacetado.

Da leitura, sobressaem três traços essenciais da sua dimensão artística e humana.

O primeiro é a centralidade da escassez como matriz estética, como sublinha César Monteiro. A privação, material e formativa, não surge como obstáculo, mas como matéria-prima. A aridez, a falta de água e a dureza do quotidiano inscrevem-se na sua obra como uma poética de pertença, um amor inquebrantável pelo “torrão” natal, mesmo quando este se revela hostil. Temas como “Torrão di meu”, “Nha Terra Escalabrode” ou “Ti Jom Poca” cristalizam essa tensão entre dureza e afecto. Paralelamente, a aprendizagem empírica, feita de ouvido e de observação, apurou uma intuição musical rara. Nhelas confirma, assim, que a criatividade não depende de condições ideais; muitas vezes, nasce contra elas.

O segundo aspeto é o seu papel na reconfiguração temática da coladeira. Num contexto em que o género foi, durante décadas, veículo de sátira frequentemente dirigida às mulheres, como se observa em compositores como Ti Goi ou Frank Cavaquim, Nhelas terá introduzido uma inflexão ética. A coladeira, na sua mão, abandona o tom machista e torna-se espaço de dignificação feminina. Canções como “Amdjer ca bitche”, “Amdjer n’Afronta”, “Dsilusão dum amdjer”, “Sodade tem pena d’mi” ou “Mãe d’fidje” não apenas rompem com uma tradição, mas instauram uma nova sensibilidade no género.

Por fim, destaca-se a sua versatilidade. Um raro equilíbrio entre virtuosismo técnico e acuidade social. A formação clássica, consolidada na Escola de Arte de Bucareste, refinou o instinto moldado na infância, permitindo-lhe introduzir harmonias mais “ousadas” e modulações invulgares na morna e na coladeira. Mas a técnica, por si só, não explica a permanência da sua obra. Nhelas escuta e traduz. Funciona como um cronista musical da sociedade cabo-verdiana ou um sociólogo munido de uma guitarra que, com base na escuta e na observação social, escreve temas imortais que retratam a idiossincrasia cabo-verdiana.

Talvez, contudo, o contributo mais duradouro deste projeto editorial resida na inclusão de uma antologia com letras e partituras anotadas. Mais do que complemento, trata-se de um gesto de preservação, um arquivo necessário para que o legado de Nhelas Spencer não dependa apenas da memória, sempre frágil, mas também do registo, que resiste ao tempo.

Sem comentários:

Enviar um comentário