quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

16 / Nicolau Saião, "O animal"


O animal 


É só uma questão de começar: o animal começa

o rosto erguido, o olhar cego de terra

- que a sua santidade é a mais oculta de todas

inevitavelmente mudando e recompondo

as alavancas, o absurdo respirar das máquinas

na treva.

O animal sobe, pois

com o ombro reluzindo na madrugada

imenso, minúsculo

mais pequeno que o tempo impiedoso

cheirando a tojo e canela, a voz

inenarrável dos séculos. Talvez os nossos pais

alcancem ver a trémula

luz da lâmpada ao longe, talvez

tudo seja de repente claro e sóbrio

- arquitectura, objectos perpétuos, um sinal

de apaziguante secura, a fresca

lembrança da larga dependência onde guardavam

os frutos e a escuridão. Talvez

para eles haja choros e piedade, a semente

do silêncio.


E contudo o animal aspira o leve cheiro

que o circunda

a chama impenetrável de muitos anos presos

à sua recordação

O animal percorre agora os quartos e as salas

o perfil doloroso das montanhas

o animal vai existindo no mundo

é o torso do mundo

o animal penetra no elemento novo

fala com as palavras obscuras que se escondem

numa gaveta duma cidade destruída.

O animal tem dentro de si vestígios

de turva dissipação. O animal

sente o vento nas barbas, contenta-se

com um logro, um afago, um charco de sangue.

O animal arqueja, enquanto

a música se propaga entre os muros e as estátuas.


Talvez seja, quem sabe, uma aparência

verdadeiramente santa e tenebrosa. Por enquanto

a sua memória cobre-se de cicatrizes

parte copos, perde-se na contemplação

da alegria, como se

o animal existisse. É o calor

o êxtase de reconhecer, visível e subtil

de si mesmo. O animal


passa de um lugar a outro, simplesmente

e recompõe tenaz e sabiamente

a sua imagem destroçada. 


"Elefante", Salvador Dali

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

15 / Do poeta José Vultos Sequeira, chegou ao T&T pela mão do eng. António Jacinto Marques o livro "Onde Nasce a Água" (2019)

103 páginas de excelente poesia que, apesar de já ter sido dada à estampa há um lustro, merece lugar de honra no T&T. Trata-se de um conjunto de memórias de um tempo perdido, do Alentejo profundo, de onde o autor veio (Mora). Os animais, as gentes, o trabalho duro, o pão, os sítios da grande província dupla do Sul, tudo está plasmado em registo fiel e de leitura comovente.

Da badana da capa do livro: José Vultos Sequeira nasceu em Mora, em 1944. Autodidacta, publicou os seus primeiros versos nos anos 70  na revista "Eva" e no jornal "O Diário", numa página de poesia e também de temática infanto-juvenil, da responsabilidade de Mário Castrim e Alice Vieira. Nos anos 80 publicou  livros para crianças e poesia, premiados pela Associação Portuguesa de Escritores, Fundação Calouste Gulbenkian e Associação 25 de Abril. Tem mais de uma dezena de livros publicados. Dado que na badana da contracapa se indica que não se podem fazer reproduções da obra e não conhecemos o autor, ficará para outra ocasião a passagem no T&T de alguns dos seus interessantes poemas.

Título: "Onde Nasce a Água"

Colecção: palavras escritas

Revisão do texto: Ana Mendo

Design e paginação: Augusto Nunes

Impressão e acabamentos: Oficinas Gráficas do Banco de Portugal

Patrocínio: Grupo Desportivo e Cultural do Banco de Portugal

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

14 / Saído recentemente no Brasil, T&T tem o gosto de revelar "Conexões", de Juergen Heinrich Maar, ed. Officio, Florianópolis, Brasil, 2024




Já divulgado no T&T, o autor brasileiro e antigo professor universitário Juergen Heinrich Maar lançou novo livro em que a Química é sujeito. Conforme ele refere no prefácio, "Conexões" é um conjunto de 20 ensaios que "apresentam ao leitor episódios, geralmente pouco conhecidos, da história da Química e de áreas afins, devidamente inseridos num contexto histórico mais amplo" e nos quais "encontraremos conexões de algum tipo: conexões com outros episódios da história da Química, conexões do facto relatado com outras épocas, com outros lugares, com factos históricos aparentemente desligados do tema em discussão, conexões com aspectos ligados à literatura ou às artes".
Embora noutra perspectiva, esta obra de Maar, também poeta publicado, assemelha-se em certa medida à do matemático português Bento de Jesus Caraça. Ambos tornam ciências afins habitualmente tomadas pelo público como "difíceis" em agradabilíssima e proveitosa leitura, acessível a todos, mesmo àqueles que não se movem nas áreas referidas. Escrito num estilo coloquial, este livro é um exemplo maior de divulgação geral da ciência, ainda assim pleno de erudição.

Eis o sumário deste repositória de episódios químicos:

01 - Malthus, o senhor von Bleichroden e Sir William Crookes
02 - Do trapiche de Cumuruxatiba à Ópera de Viena e um sucesso de Hitchcock
03 - Ersatz
04 - Da cozinha ao laboratório e vice-versa
05 - Águas curativas - Lugares, Épocas, Curas?
06 - Ilhas e aves, belas cores e o guano alemão
07 - Ar de fogo, ar vital, oxigénio, passando pelo espírito nitro-aéreo
08 - A reacção mais importante - da Alquimia à Química
09 - Amargos aromáticos, gotas amargas
10 - As baleias do Desterro - As baleias da Química
11 - Quatro singelos materiais
12 - A cervejaria abandonada - Uma história sobre a Penicilina
13 - A Química e as florestas
14 - A ciência vai ao cinema
15 - O corante e o teatro
16 - Sementes, mudas e biopirataria ou as plantas também migram
17 - Flores para o coração
18 - Prenúncios de globalização no século XVI
19 - Vidros e espelhos, antigos e eternos
20 - Iquique, Antofagasta, Liverpool, Hamburgo ou o Ouro Branco dos Altiplanos