domingo, 5 de julho de 2026

65 / Luís Palma Gomes, "Irremediável"


Irremediável


A vida é tão pouco. 

Talvez por isso a gata durma, irremediável, na marquise. 

Lá sabe ela que pouco mais temos do que o sol,

 e a noite, quando chega, parece vir para sempre.


O comboio finge que passa, mas não. 

Volta e revolta, a toda a hora. 

Dirão que é outro comboio, outros passageiros.

 Mas o que passa por aqui 

é sempre o mesmo comboio, sempre as mesmas pessoas.


Conheci-as noutros tempos. 

Quando as revejo, calo-me e sigo. 

Temos vergonha uns dos outros, porque não conseguimos sair daqui.

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