quinta-feira, 1 de janeiro de 2026
terça-feira, 23 de dezembro de 2025
44 / Adriano Miranda Lima, "Uma luz ao fundo da noite"
Uma luz ao fundo da noite
Conto de Natal dos tempos em que se vivia com pouco
Naquele tempo, anos quarenta do século passado, para o comum das pessoas de poucos recursos a celebração do Natal pouco mais era que um sentimento interiorizado e partilhado no seio das famílias. Numa época em que até escasseavam bens de primeira necessidade, imagine-se quão distante se estava do consumismo de hoje com as promoções e o Black Friday vulgarizados na actividade comercial.
No bairro onde vivia a Luzia a iluminação pública era escassa e nem todos os lares tinham luz eléctrica puxada para o interior das habitações. A véspera do Natal não era para ela diferente dos dias comuns. Como sempre, levantou-se aos primeiros alvores da madrugada para confeccionar os bolos e os salgados que vendia diariamente na vizinhança e nos estabelecimentos, para garantir o seu sustento. Mulher de rija têmpera, abandonada pelo marido há alguns anos, tinha da vida uma experiência agridoce, na sua maneira peculiar de sofrer as agruras do quotidiano sem hipotecar as reservas do seu ânimo. Os seus sessenta anos de idade foram-lhe ensinando desde cedo que o poder da imaginação logra por vezes autênticos milagres na busca de novos estímulos para a vida. Bastava-lhe a simples contemplação das estrelas distantes para pensar que algo mais haverá para lá do bairro onde se esgota a rotina da sua vida. Este e outros devaneios do género transformam-na, com frequência, em avatar da vida fervilhante das grandes cidades estrangeiras que uma ou outra vez viu estampadas em coloridos postais. Mas ela logo se devolve, satisfeita consigo própria e com o pouco que tem, à pobreza honrada do lugar em que exerce a soberania do seu viver.
Este dia é véspera de Natal e seria mais um igual aos outros não fosse o sonho que ela vinha acalentando e queria ver realizado logo à noite. Foi na prateleira de uma loja de utilidades domésticas que o sonho da Luzia tinha começado a ganhar forma. Há muito que desejava ver-se livre do modesto candeeiro a petróleo que mal lhe alumiava a casa à noite. Pensava ela: − isto é coisa de fraco jeito, está mais que velho, fumega com frequência e não me dá aquela luz que entra pela alma dentro. E o que a seduziu? Um grande candeeiro de vidro, com um vistoso globo brilhante como cristal. Mulher de espírito fantasioso, seduzia-se com as figurinhas gravadas a estilete de aço no globo do candeeiro, que no seu entender só podiam ser obra de artista de outro mundo.
E foi assim que começara desde há algum tempo a amealhar um escudo hoje, outro amanhã, e por vezes valores mais avultados quando o dia lhe corria de melhor feição no negócio do seu sustento. Arranjara um pote de barro com uma ranhura e dele fez o cofre que haveria de realizar o milagre da sua melhor prenda natalícia alguma vez recebida.
Quando o Sol se pôs, a Luzia já estava em casa e esfregava as mãos de contente por ter realizado um dia de venda lucrativo. Compôs a sua mesa com especial esmero e nela dispôs os ingredientes da ceia natalícia, produto da sua própria confecção. Depois, quando já escurecia, foi buscar o ambicionado candeeiro dias antes comprado. Atestou-o de petróleo, aguardou que a torcida se embebesse do combustível, nivelou-a o suficiente, riscou um fósforo e chegou-lhe a chama. O compartimento foi subitamente inundado de uma luminosidade nunca vista na salinha da sua pequena casa. Ela elevou a torcida ainda um pouco mais, na ânsia de conferir à luz o máximo de incandescência, e de repente todo o interior da habitação quase pareceu ganhar padrões caleidoscópicos, realçando-se pormenores antes ocultados pela luz modesta do anterior candeeiro. Convidou a sua amiga e vizinha, a idosa Isabel, viúva e a viver só, para a ceia de Natal. E a Isabel teve logo este espontâneo desabafo, mal entrou: − Luzia, isto hoje está outra coisa, mulher! É como se a luz deste candeeiro lavasse e renovasse tudo, incluindo os nossos corações! A Luzia não coube em si de contente com o reparo da amiga.
Cearam e conversaram longamente sobre o seu longínquo passado de raparigas novas, relembrando a dureza da vida, com as suas artimanhas e traições, mas também com as ilusões que se douram e se renovam com a luz do sol nascente de cada dia. A cumplicidade entre ambas tornava a Isabel a melhor confidente dos segredos do coração da amiga, cujas divagações do espírito mereciam sempre a sua concordância mesmo que muitas vezes as não entendesse.
Despediram-se quando lá fora o silêncio da noite era ainda quebrado pelo estalejar de um ou outro retardatário foguete de Natal. Por fim, foram-se extinguindo os ruídos da noite, sempre mais pródiga de eflúvios em dias festivos. Luzia ficou acordada mais algum tempo, sozinha com os seus pensamentos, inalando sofregamente a luz do seu novo candeeiro, sentindo um revigoramento de alma, como que banhada por outra luz, uma luz celestial.
Nota: a redação deste texto obedeceu à ortografia anterior ao AO 90.
Tomar, 21 de Dezembro de 2025
domingo, 14 de dezembro de 2025
43 / Luís Palma Gomes, "A casa temporal"
A casa temporal
Sou, por agora, mistério em bruto,
sortilégio ainda incandescente.
São assim as manhãs de inverno,
quando o sol aparece sem avisar,
para almoçar.
Se apenas existisse esta manhã,
seria suficiente:
o passado reconstituído
em filigrana,
o futuro coisa mínima,
carpa a nadar, previsível,
num lago semi coberto de folhas.
É isso o que faço:
exercito até ao meio-dia
a contenção do tempo.
Alguém, porém, bate
na porta grossa de carvalho
que construí para esta casa temporal.
Bate e insiste
com mãozinhas delicadas,
afiadas e subtis;
insiste, insiste.
“Deve ser uma criança”, penso.
Quando abro a porta, ninguém.
Só uma sombra desce as escadas, apressada,
e deixa no tapete
uma carta fechada.
Prefiro não a ler, por enquanto.
sábado, 18 de outubro de 2025
42 / Joaquim Saial, "Quem era o Sr. Alejandro Ruiz?"
Poema retirado, para ser inserido no livro "Quando, enfim, fores a Berlim".
quarta-feira, 24 de setembro de 2025
41 / Luís Palma Gomes, "Ervas secas, quase mortas"
Ervas secas, quase mortas
Vós, que tivestes
todo o verão para florir,
e creio que cumpristes.
Os pássaros e os ratos
amavam-vos
por razões diversas,
mas não menos sinceras
e frutuosas.
Amavam-vos
como quem ama
a mãe,
o pai,
a própria pele.
Agora,
vossas folhas
acastanham lentamente.
Talvez a terra vos chame
em segredo
e para sempre.
Ou talvez não.
Talvez apenas adormeçais
no lume brando do chão,
no melhor dos refúgios
para quem perdeu, por agora,
alguma força.
sábado, 20 de setembro de 2025
39 / Solange Firmino (Brasil), "Enseada de Junho"
Enseada de Junho
Não sei se amo mais o marujo, o vento
ou a maré que traz a desordem da espuma.
O cais inabitado é uma metáfora a decifrar
o silêncio do inverno.
Os barcos velhos ancorados, as velas rotas recolhidas
fazem pensar que só buscavam um porto de abrigo.
Até as aves marinhas alteram seus rumos.
Adio para amanhã mais uma tormenta.
Ao entardecer, percorro a orla da praia.
Espero a lua se acender no mar.
Só os uivos comovidos dos cães
me fazem companhia agora.
| Foto Joaquim Saial |
quarta-feira, 3 de setembro de 2025
terça-feira, 2 de setembro de 2025
37 / Na morte (hoje) do actor índio Graham Greene, por Nicolau Saião
Hoje, logo que abri o aparelhómetro, dei com uma triste notícia: morreu Graham Greene, o actor índio da tribo Oneida que todos nós pudemos apreciar nos filme em que esplendeu a sua grande qualidade de intérprete: “Danças com Lobos” ou, no campo dos melhores policiais cinematográficos, o inesquecível “Coração de Trovão”, a partir de um must de Tony Hillerman, posto na tela pelo consistente Michel Apted no qual para além de Green também actuaram os excelentes Val Kilmer, Sam Shepard e Sheila Tusey, enquadrados por uma equipa bem escolhida.
Graham Greene, que pelo seu povo fora elevado à condição de chefe honorário devido à sua qualidade de grande actor de teatro e cinema mas também pela sua postura de integérrimo representante da sua tribo (Oneida, uma das pertencentes às denominadas Seis Nações) teve antes de enveredar pela arte cénica diversas profissões: carpinteiro, operário do aço e soldador até chegar, pelo estudo depois, a engenheiro civil.
Tive ocasião, durante a minha estadia no Canadá, em Toronto - cidade onde ele vivia - e noutros locais do Ontário, de conversar com diversos oneidas, os quais unanimemente me referiram, a dado passo, o gosto que tinham em ser confrades tribais de Greene, apreciado e respeitado como membro destacado da nação Oneida.
(Os Oneida são um povo indígena do grupo linguístico iroquês, com as suas terras ancestrais em Nova Iorque. Eles são um dos cinco povos originais da Confederação Iroquesa (ou Haudenosaunee), conhecidos como o "Povo da Pedra em Pé". Os Oneida tiveram um papel crucial como aliados dos Estados Unidos durante a Revolução Americana e muitos se dispersaram ao longo do tempo, estabelecendo-se em Wisconsin e Ontário, Canadá, após a perda da sua terra.
Resta-me referir que o chefe Cavalo Corvo, nome índio tradicional do saudoso actor agora falecido - por causas naturais conforme é referido nas notícias necrológicas, pois não partiu por doença ou acidente - fora nomeado, entre diversos outros galardões durante a sua carreira, para o Oscar de melhor actor coadjuvante pelo seu papel de Chefe Kicking Bird do "Danças com lobos" em que dava réplica ao também excelente Kevin Costner, realizador dessa memorável película posta em cena a partir de um notável romance do norte-americano Michael Blake.
Consternado pela sua partida, curvo-me perante a sua memória.
36 / De Luís Palma Gomes, "Os anjos"
Os anjos
Nada é mais terrível do que um anjo
quando desce branco e silencioso
para mudar de lugar os lírios
que dispuseste com tanto cuidado na jarra da sala.
O belo é um adjectivo revelador
que lhes cai dos olhos para as asas,
escorrendo depois até à ponta dos dedos.
É através desse lugar táctil
que os anjos sentem e nos mudam o destino,
trocando flores como quem escreve
numa linguagem de profecias.
quinta-feira, 28 de agosto de 2025
35 / De Joaquim Saial, "Sopro"
Poema retirado, para ser inserido no livro "Quando, enfim, fores a Berlim".
sábado, 9 de agosto de 2025
34 / De Luís Palma Gomes, "Prognósticos"
Prognósticos
Parece que hoje não chove,
parece.
Quando vai chover
as vozes são outras
e chove-me também.
Por isso, eu sei
que não vai chover,
como aqueles galos de plástico
que mudam de cor
quando isso acontece.
terça-feira, 1 de julho de 2025
domingo, 29 de junho de 2025
31 / De Luís Palma Gomes, "Pax simulata"
Pax simulata
Somos grandes gatos, tu e eu.
Por isso, dormitamos no sofá
a ouvir a imitação da chuva
que o filtro do aquário faz ressoar na sala.
Gostamos de estar assim,
horas e horas, tentando
acalmar a bravura do relógio.
Porque a paz não é bem a paz,
mas apenas a ausência da guerra.
sexta-feira, 30 de maio de 2025
domingo, 18 de maio de 2025
29 / De António Rosa, "Luís, o que queria trabalhar..."
Luís, o que queria trabalhar...
Luís era um pobre diabo que não tinha onde cair morto, como soe dizer-se.
A fome agora apertava e nem sequer um biscate, um mandado, nada lhe aparecia que lhe pudesse trazer uns pequenos trocos para uma bucha. Embora se envergonhasse já começava a pedir, depois que a polícia correu com ele do parque de estacionamento, mas até as pessoas com cara de caridosas lhe negavam a esmola.
Luís estava mesmo a passar mal. Deambulava por aquela rua abaixo, que vai dar ao antigo parque industrial, sem rumo definido, andando por andar. Passou ao portão de um velho pavilhão onde ouviu gente e máquinas a trabalhar. Veio-lhe à cabeça a resposta que alguém lhe dera ontem, quando pedia esmola: “Vai trabalhar, malandro…”. Será que aquele sujeito tinha razão?
Luís parou, passou as mãos pelos cabelos desgrenhados, na tentativa de melhorar a má imagem, sacudiu também a poeiras das calças e decidiu-se a bater ao portão. Eis que naquele instante este se entreabriu e surgiu um homem de meia-idade, bem vestido e de telemóvel ao ouvido, que esbracejava, visivelmente irritado e passou por ele sem o ver. Deu três ou quatro passos na calçada e voltou para junto do portão. “Tive de sair, que lá dentro com o barulho das máquinas não te consigo ouvir. Isto está mesmo impossível, não sei o que hei-de fazer. O pessoal está a faltar de uma maneira assustadora. Uma está de férias de parto, dois dos que mais falta me fazem estão doentes, já há uns dias. Outro telefonou-me ontem à noite a dizer que hoje não poderia vir porque lhe morreu o sogro. Até o rapaz dos recados hoje faltou. Não tenho ninguém para fazer a entrega das encomendas. Isto está um caos completo. E logo numa altura destas em que não posso fechar, que era a vontade que eu tinha…” E continuava a conversa gesticulando, dando pontapés em pedras da calçada, que não tinham culpa nenhuma, à beira de um ataque de nervos.
Luís apercebeu-se que aquele era o patrão. Tinha de lhe pedir emprego, mas era óbvio que aquele não era o momento apropriado.
Entretanto o homem, quando se voltou para entrar, reparou naquele rapaz andrajoso ali encostado ao portão. “Quem é você e o que quer daqui?”
Luís, um pouco envergonhado respondeu: “Sou o Luís e vinha pedir emprego pois preciso muito de trabalhar, em qualquer trabalho que seja, pois estou a passar fome. Agradecia-lhe muito.”
Diz o patrão: “Não é que eu não esteja a necessitar de colaboradores, mas agora não tenho tempo para o atender.”
“Não faz mal, eu posso ficar aqui à espera”, respondeu o Luís enquanto se sentava no chão, encostado ao portão de ferro, que estremeceu quando o patrão o fechou.
Já no gabinete, sentado à secretária, passava a mão pelo pouco cabelo num gesto de preocupação. Como é que vou entregar estas encomendas que têm que chegar aos clientes impreterivelmente hoje? Nem sequer posso sair daqui, com a falta do encarregado.
Entretanto, pela janela entreaberta ouvia-se da rua uma multidão que gritava: “Deixem trabalhar o Luís”. Iluminou-se. Correu ao portão a chamá-lo e disse-lhe: “Você vai entregar isto.”
quarta-feira, 30 de abril de 2025
sábado, 26 de abril de 2025
27 / Joaquim Saial, "Humilhação"
Humilhação
Aquele leão era o mais destrambelhado e mau caçador do bando. Quando ao tentar atacar um elefante foi agarrado pela tromba deste e projectado contra o grande imbondeiro, o que mais o vexou não foi esse facto, mas sim ouvir toda uma alcateia de oito hienas a rir-se às gargalhadas da sua desgraça.
quarta-feira, 16 de abril de 2025
26 / Luís Palma Gomes, a partir de um verso de "Tabacaria", de Álvaro de Campos/Fernando Pessoa
Há tantos que não pode haver tantos
porque se houvesse tantos, nem um havia.
E mesmo que houvesse um,
como seria ele singular e autêntico
se os outros eram tantos?
Não, não pode haver tantos
sem que rompesse de imediato
um escândalo e uma catástrofe,
por haver apenas um entre tantos.
e no final esse tal seria afinal nenhum,
para que continuasse a haver tantos,
apesar de não haver sequer um.
25 / Carlota de Barros (Cabo Verde), "Noite de lua cheia"
Noite de lua cheia
Tenho gravado nos meus olhos
O luar que me extasiou
Numa noite
Em que a lua cheia
Me seguiu
Calma e segura
Pelos caminhos por onde ia.
Ó noite de lua cheia
Tão calma ... tão bela...
Que ficaste gravada
Nos meus olhos
Até adormecer.
E como é belo o luar
Que tão naturalmente
Nos fica nas mãos e na alma!
Ó doce lua cheia
Tão calma tão bela
Que ficaste nos meus olhos
Para sempre.
Que mistérios escondes
Noite de lua cheia?
Ó noite de luar
Noite de doçura
Noite de mistério e luz
Como desejo ficar acordada
Para contemplar
Docemente o luar
Até brilhar a aurora!
E como é belo o luar
Nas minhas mãos
Naturalmente calmo
Naturalmente misterioso!
Ó lua cheia que enquanto
Eu adormecia feliz
Me uniste ao luar e à noite
Entre os mistérios da noite
E a doçura que o luar esconde!
24 / Ainda de 2024, mais um livro do prolífico autor brasileiro Juergen Heinrich Maar: "150 Sonetos à Moda Antiga", ed. Officio, Florianópolis, Brasil, 2024
sexta-feira, 4 de abril de 2025
quinta-feira, 3 de abril de 2025
domingo, 2 de março de 2025
21 / Nos 20 anos da morte do escritor cabo-verdiano Manuel Lopes
Manuel Lopes escrevia em português, embora utilizasse nas suas obras expressões em crioulo cabo-verdiano. Foi um dos responsáveis por dar a conhecer ao mundo as calamidades, as secas e as mortes em São Vicente e, sobretudo, em Santo Antão.
Emigrou ainda jovem tendo-se a sua família fixado em 1919 em Coimbra (Portugal), onde fez os estudos liceais.
Quatro anos depois, voltou a Cabo Verde como funcionário de uma companhia inglesa.
Em 1936, fundou com Baltasar Lopes a revista "Claridade", de que sairiam nove números.
Em 1944 foi transferido para a ilha do Faial, nos Açores, onde viveu até se fixar em Lisboa, em 1959.
Regressou apenas por duas vezes ao seu arquipélago.
O texto acima (com adaptações) foi retirado da Wikipédia
Ficção
Chuva Braba, 1956/1957
O Galo Que Cantou na Baía (e outros contos cabo-verdianos), 1959
Os Flagelados do Vento Leste, 1959
Poesia
Horas Vagas, 1934
Poema de Quem Ficou, 1949
Folha Caída, 1960
Crioulo e Outros Poemas, 1964
Falucho Ancorado, 1997
Ensaio
Monografia Descritiva Regional, 1932
Paul, 1932
Temas Cabo-verdianos, 1950
Os Meios Pequenos e a Cultura, 1951
Reflexões Sobre a Literatura Caboverdiana, 1959
19 / Saído em 2024 no Brasil, mais um livro de Juergen Heinrich Maar: "Goethe e a Química", ed. Officio, Florianópolis, Brasil, 2024
sábado, 1 de março de 2025
18 / Luís Palma Gomes, "Dir-me-ás"
Dir-me-ás
Dir-me-ás
se são ou não
notícias auspiciosas
ou pântanos onde o corpo se afunda
ao som triunfante de uma valsa.
Dir-me-ás
se sinto dor ou prazer
ou se alterno entre ambos
como um pêndulo balançando
cada vez mais lento
sujeito que está ao atrito
da doença e do amor descasado.
Dir-me-ás...
17 / Mais um interessante texto de Nicolau Saião - carnavalesco, desta feita... e com ilustração do próprio
O Arantes telefonou-me ainda não era meio-dia. Chovia de mansinho. Ele estava alegre, como sempre (vodka "Kamikaze"). "Congemino de que irás logo tu mascarado!", disse-me mostrando saber como iria ser no baile das Saavedras. "Aposto que vais de urso!", atirou gargalhando em stacato. Não lhe disse que sim nem que não. E ele, lampeiro: "Adeus, meu malandro! Daqui a bocado passo aí por casa para que me emprestes o sobretudo que a nena te ofereceu".
Estava nisto quando tocaram à campainha. Claro, era o Avelino. "Tou cá a pensar...", afirmou antes que eu respirasse fundo "Logo no baile das Reboredos... Sou capaz de jurar que vais de guarda-republicano!". Foi direito à garrafeira e, todo lampeiro, abalou-me com o "Queen Margot"! Ainda não se extinguira o estrépito na escada e já me repenicava o telelé. Naturalmente, era o Simões, o gorducho com o seu pigarro enervante. "Olha lá, parceiro do teu parceiro! Já pensei que logo irás de bispo à funçanata das Castro Henriques...", pespegou-me com vivacidade. "É ou não é, meu chapa?" E antes de me deixar reagir já me cravara a promessa firme de 50 euros sem caroço... Despediu-se velozmente e quem vejo aparecer no e-mail do meu portátil como sempre ligado? Evidentemente, o Belisário. "Meu garanhão", li na janela do sinistro aparelhómetro "Já cá se sabe que ao baile das Avintes tu irás de bombeiro. Faz-te de novas...E não te esqueças de me devolver aquela primeira edição que me surripiaste do Fernando Arrabal".
Suspirando, fui até à secretária. Nem tinha tido tempo de ler o correio do dia anterior. Uma carta. Hum, hum... Da fôfa, a Leopoldina. "Matulão, calculo que logo ao baile da Filarmónica não te sustenhas de ir de criada-para-todo-o-serviço. Sempre gostaste de meias pretas, eheh...". E dava-me logo o recado: "Não te esqueças de me levar a tua pulseira de ouro que eu depois devolvo-ta...".
A chuva parara. Olhei pela janela, com certa melancolia, as árvores que, muito quietas, estavam como sempre no enfiamento das ruas onde se cruzavam transeuntes com um ar algo abatido. Sentia-me meio patusco.
Respirei fundo.
Despi-me nas calmas. Pausadamente. Com prazer, com decisão. Pus-me mesmo sem cuecas, fui até à porta da entrada, fechei-a à chave e, voltando para o quarto, atirei-a lá para a gaveta de baixo do armário por uma fenda entreaberta que, depois, cerrei com esmero.
Desatei a rir de mansinho. Num estilo muito meu. Abri o ar condicionado, coloquei-o no quentinho, apanhei um exemplar do Boris Vian e estendi-me confortavelmente na doce cama.
Eles nunca tinham pensado que neste Carnaval eu iria ficar no leito mascarado de nudista...
In “O pincel honesto, contarelos para mortos-vivos”
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| Pintura de Nicolau Saião |


































